04 de Fevereiro de 2019

What ever happened to the future_MVallen1980_small

(Imagem: "Whatever Happened to the Future!" Mark Vallen 1980 ©)

If you don’t like change, - You’re going to hate extinction!” Lee Camp (citado neste post: https://xrblog.org/2019/01/19/its-chrysalis-time/)

Neste início de ano tenho estado mais introspectivo e não tem sido fácil trazer à escrita as muitas perplexidades que vão surgindo perante o desenrolar dos acontecimentos na minha cidade, no país e no mundo. Na verdade, as perspectivas para o futuro que se avizinha não parecem famosas – nomeadamente, em virtude da chegada ao poder de um número crescente de líderes populistas ou autocráticos em vários países (com destaque óbvio para os EUA e o Brasil), do crescimento do descontentamento social e de algum radicalismo protagonizado em particular por movimentos/partidos reaccionários ou fascistas, ou do agravamento dos extremos climáticos e das previsões mais ou menos catastróficas de relatórios internacionais recentes (como o do IPCC: https://en.wikipedia.org/wiki/Special_Report_on_Global_Warming_of_1.5_%C2%B0C) e artigos científicos sobre o estado do planeta (como aquele que ficou conhecido como ‘Hothouse Earth paper’: https://www.theguardian.com/environment/2018/aug/06/domino-effect-of-climate-events-could-push-earth-into-a-hothouse-state). No que se refere a este último aspecto, diagnósticos mais recentes parecem confirmar os cenários mais pessimistas:

https://countercurrents.org/2019/01/19/state-of-the-climate-how-the-world-warmed-in-2018/

https://www.publico.pt/2019/01/31/ciencia/noticia/planeta-extremos-40-negativos-eua-40-positivos-australia-1860194

É aliás minha convicção que a actual crise ambiental, e em particular a eminente catástrofe climática, constitui o maior desafio civilizacional que temos pela frente, mas é igualmente aquele que estamos com maiores dificuldades em encarar e resolver - não só porque está intimamente ligado ao paradigma socio-económico dominante, mas também por ser uma consequência do modo de vida insustentável de uma parte substancial da população mundial privilegiada. Voltarei a este assunto mais à frente.

Abro aqui um parêntesis para assinalar algo que pode até ser óbvio: a realidade é sempre muito mais complexa e diversa do que aquilo que conseguimos apreender. Por isso é importante ter tempo e disponibilidade mental para escutar um leque diverso de vozes e atentar a outros pontos de vista (que gosto de traduzir como ‘pedir emprestados os óculos dos outros’). A realidade parece-me pelo menos bem mais intrincada do que nos querem convencer os media convencionais e as ‘redes sociais’, que insistem em disseminar a superficialidade, o imediatismo, o sensacionalismo e as famosas ‘fake news’. E este é claramente um dos maiores entraves à tomada de consciência e à reflexão crítica por parte de largos sectores da população que, ao serem seduzidos ou enfeitiçados por aqueles poderosos meios de (des)informação, vão resvalando, voluntaria- ou involuntariamente, para a alienação, a cretinização ou a negação. Faço notar que não se trata aqui de atribuir culpas àquelas pessoas; trata-se apenas de tentar entender o que se passa para conseguir encontrar as melhores formas de estar-ser e de agir.

Por entre a enxurrada de notícias mais desanimadoras ou desmotivadoras, quase passam desapercebidas muitas outras que nos falam de outras realidades mais auspiciosas e inspiradoras. Um bom exemplo é o levantamento pela revista Quartz de acontecimentos positivos do ano 2018, que vão desde casos de sucesso de projectos ambientais ou de conservação, a projectos sociais de luta contra a pobreza ou a discriminação, até à adopção de práticas e hábitos mais sustentáveis:

https://qz.com/1501642/the-99-best-things-that-happened-in-2018/

Como se pode ler no final do artigo: “If we want to change the story of the human race in the 21st century, we need to change the stories we tell ourselves.”

Este podia ser o lema das revistas em língua inglesa ‘Yes! Magazine’ (http://www.yesmagazine.org/) e ‘Positive News’ (http://positivenews.org.uk/) que publicam durante todo o ano notícias e reportagens sobre iniciativas e projectos direccionados para a sustentabilidade ambiental e social ou para a defesa dos direitos humanos. A uma tarefa semelhante se dedica também o site do ‘Post Carbon Institute’ (https://www.postcarbon.org/) com ênfase na promoção de soluções para ultrapassar a dependência das sociedades actuais dos combustíveis fósseis e do crescimento económico, e para construir comunidades mais resilientes e sustentáveis.

Também em Portugal se publicam algumas revistas que têm como objectivo promover iniciativas e modos de vida mais sustentáveis, de que são exemplo a revista Eco123 (https://eco123.info/), a revista online Raízes Mag (https://www.ancoraverde.pt/raizes-mag/) ou o site UniPlanet (https://www.theuniplanet.com/).

Aproveito para divulgar um outro projecto nacional – “É p’ra Amanhã” - que pretende fazer um levantamento das iniciativas transformadoras ou regenerativas que já existem em Portugal, na linha do popular documentário francês ‘Amanhã/Demain’, em que está envolvido, entre outros, o jovem cineasta Pedro Serra (autor dos documentários ‘Que estranha forma de vida’ e ‘Wasted Waste’): http://www.epraamanha.pt/  https://www.facebook.com/epraamanhadoc/

Também a nível internacional têm surgido recentemente alguns documentários que retratam iniciativas diversas que procuram trilhar caminhos alternativos ao paradigma socio-económico dominante, dos quais destaco a série de seis vídeos curtos ‘This New World’ produzida pelo Huffington Post com o apoio do Presencing Institute (https://www.presencing.org/#/news/news/this-new-world-video-series), bem como o documentário ‘Utopia Revisited’ da produtora independente alemã Langbein & Partner: http://www.langbein-partner.com/home-en/detail/utopia-revisited

Recomendo ainda o site ‘Systemic Alternatives’ (com versões em três línguas: EN, FR, ES) - uma iniciativa conjunta da Fundación Solón (Bolívia), Attac-França e a ONG ‘Focus on the Global South’ (sudoeste asiático) que apresenta uma diversidade de propostas que vão do Buen Vivir ao Decrescimento (sobre os quais escrevi em posts anteriores) e ao Eco-feminismo, como caminhos complementares para uma transição eco-social justa e eficaz, e como alternativas ao capitalismo e aos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas: https://systemicalternatives.org/ - destaco em particular as excelentes infografias (nas três línguas) sobre os seis temas principais.

A possibilidade de encontrarmos uma saída colectiva para as crises interligadas que enfrentamos poderá passar por algumas das propostas que acabei de indicar, mas também implica mudanças nas práticas quotidianas a nível pessoal, que são aliás defendidas por alguns dos projectos e artigos que listei. No entanto, convém realçar que embora as mudanças individuais sejam relevantes, não serão suficientes para a profunda transformação social e cultural que será preciso empreender. Essa é a mensagem de um texto provocador do activista norte-americano Derrick Jensen, que foi adaptado pelo videasta Jordan Brown: https://youtu.be/m2TbrtCGbhQ (o texto integral pode ser lido aqui: http://www.derrickjensen.org/2009/07/forget-shorter-showers/). A postura radical de Jensen é criticada neste outro artigo que faz uma análise exaustiva daquele texto, fundamentando as várias concordâncias ou discordâncias: https://www.elephantjournal.com/2011/06/forget-shorter-showers-i-dont-think-so/

Numa crónica mais recente o jornalista português Vítor Belanciano questiona as posturas ecológicas individuais e sugere igualmente que são insuficientes para escala da mudança que será necessária para enfrentar a crise ambiental:

https://www.publico.pt/2019/01/20/opiniao/cronica/ecologia-resolvese-mudancas-habitos-individuais-1858294

Cruzei-me com outro apelo à acção colectiva ao revisitar o número de Nov/Dez de 2015 da revista canadiana Adbusters – a face mais visível de um grupo activista que contesta a sociedade de consumo desde 1989 (lançou o ‘Buy Nothing Day’ e esteve na génese do movimento ‘Occupy Wall Street’) – onde me detive no texto de um manifesto que apelava à adesão à ‘Billion People March’ e que apelidaram de ‘Manifesto for World Revolution’:

http://art-for-a-change.com/blog/2015/06/manifesto-for-world-revolution.html

http://abillionpeople.org/ Não consegui confirmar se a referida marcha se chegou a concretizar, mas esse apelo está agora a ser resgatado por novos movimentos de cidadania.

Retomo então o tema da crise ambiental, e em particular da crise climática, para destacar as iniciativas de contestação e de desobediência civil que estão surgir um pouco por todo o mundo e que têm aliás merecido algum relevo nos media convencionais a nível internacional:

BBC: https://www.bbc.co.uk/newsround/46988771

Huff Post: https://www.huffingtonpost.com/entry/the-human-survival-summit-the-next-wave-of-climate-change-protests-is-coming_us_5c4b4d8be4b0e1872d4368f4

Quero dar um destaque especial às iniciativas que têm sido protagonizadas por jovens estudantes que saíram à rua em países muito diversos e que se inspiraram nas greves à escola iniciadas em 2018 pela jovem sueca Greta Thunberg, que se arrisca a tornar a Rosa Parks do séc XXI para as questões ambientais:

https://www.publico.pt/2019/01/24/p3/noticia/ha-estudantes-faltar-aulas-protestar-alteracoes-climaticas-1859291

https://www.theguardian.com/environment/2019/jan/24/school-strikes-over-climate-change-continue-to-snowball

Suiça: https://www.esquerda.net/artigo/greve-do-clima-na-suica/59160

Alemanha: https://www.dw.com/en/climate-protests-germanys-new-green-youth-movement-takes-to-the-streets/a-47166873

A jovem Greta esteve presente em grandes cimeiras internacionais, como a COP24 na Polónia em Dez 2018 e o Fórum Económico em Davos em Jan 2019, denunciando a hipocrisia e desfaçatez das ‘elites’ mundiais, incapazes ou renitentes em agir no sentido de mitigar as crises ambientais e sociais interligadas. Entre as frases marcantes que tem proferido destaco apenas esta: “Why should we be studying for a future that soon may be no more?” A sua breve prestação na sessão plenária da COP24 ficará para a história como um dos discursos mais desassombrados, assertivos e poderosos sobre a questão climática e as suas causas profundas: https://www.youtube.com/watch?v=Xwnqy51BJNM

Como afirmou no final da sua alocução, a acção e a mudança para fazer frente à crise climática, terão de ser sistémicas, e terão de vir, não dos decisores políticos, mas dos cidadãos, onde deve residir o verdadeiro poder. Esta é também a posição defendida pelo movimento activista ‘Extinction Rebellion’ (https://xrebellion.org/), com origem no Reino Unido, que tem coordenado várias acções de protesto e de desobediência civil, e prepara várias iniciativas para o ano 2019: https://xrblog.org/2019/01/31/newsletter-12-spring-is-coming/

Estão a ser planeadas várias outras mobilizações internacionais, com destaque para uma Greve Global de jovens estudantes no dia 15 Março - Global Strike for Future:

https://www.facebook.com/Climate-Spring-for-future-304082996912097/

Evento FB: https://www.facebook.com/events/1994180377345229/

School Strike for Climate: https://www.schoolstrike4climate.com/

Video: https://www.facebook.com/304082996912097/videos/vb.304082996912097/1903740206410390/?type=2&theater

 

O ano de 2019 poderá pois vir a ser um ano de viragem na mobilização cidadã, afastando do horizonte as nuvens negras que se têm acumulado, retirando-nos assim do rumo de insustentabilidade em que o modelo sócio-económico materialista, extractivista, mercantilista e capitalista nos colocou, e conduzindo a uma redemocratização radical das sociedades, que, como escrevi no post anterior, será essencial para conseguirmos uma gestão colectiva do bem-estar e dos bens comuns que seja simultaneamente sustentável e justa. Não creio que este caminho seja fácil nem isento de dificuldades e sofrimento, pois haverá certamente resistência e relutância em implementar as mudanças drásticas que serão necessárias. Mas este é um desafio que não nos podemos dar ao luxo de perder pois a nossa sobrevivência está de facto em risco. Como afirmam os activistas do movimento ‘Extinction Rebellion’: revoltemo-nos contra a nossa própria extinção - ‘Rebel for life’!

Termino com uma afirmação do realizador Josh Fox, autor do documentário “How to let go of the world (and learn to love all the things that climate can’t change)” (2016): “(…) fall in love with what you’re doing, but do what you love in the first place. And that’s what we need if we’re going to rebuild our civilization in the face of climate change.”

https://www.yesmagazine.org/planet/climate-change-film-tells-us-how-to-let-go-of-the-world-20160603

oceans are rising and so are we_XR2019_small.png

 

Informação adicional:

 

Outros apelos à mobilização em resposta à emergência ambiental e climática:

Global Climate Emergency – apelo da “Citizens’ Campaign on the Climate Crisis (India)” (Dez 2018): https://countercurrents.org/2018/12/10/call-it-by-its-true-name-declare-global-climate-emergency-now/

Relatório “Climate Emergency Plan” do ‘Club of Rome’ (2018): https://www.clubofrome.org/2018/12/03/the-club-of-rome-launches-the-first-climate-emergency-plan/

Apelo à mobilização cidadã contra a inacção perante a crise ambiental de 100 académicos, autores e activistas mundiais (Dez 2018): https://www.theguardian.com/environment/2018/dec/09/act-now-to-prevent-an-environmental-catastrophe

We must collectively do whatever’s necessary non-violently, to persuade politicians and business leaders to relinquish their complacency and denial. Their ‘business as usual’ is no longer an option. Global citizens will no longer put up with this failure of our planetary duty.

Earth Strike 2019: https://earth-strike.com/

http://www.ecoshout.org.au/event/earth-strike-general-strike-save-planet

People Rise Up 2019!

https://www.onebillionrising.org/about/campaign/  https://popularresistance.org/

 

Excertos de texto da escritora e ambientalista norte-americana Ursula Le Guin (citados no número da revista Adbusters a que me referi neste post) – prefácio do livro ‘The Next Revolution’ de Murray Bookchin (2015):

The left/right opposition, though often an oversimplification, for two centuries was broadly useful as a description and a reminder of dynamic balance. In the twenty-first century we go on using the terms, but what is left of the Left? The failure of state communism, the quiet entrenchment of a degree of socialism in democratic governments, and the relentless rightward movement of politics driven by corporate capitalism have made much progressive thinking seem antiquated, or redundant, or illusory. The Left is marginalized in its thought, fragmented in its goals, unconfident of its ability to unite. In America particularly, the drift to the right has been so strong that mere liberalism is now the terrorist bogey that anarchism or socialism used to be, and reactionaries are called ‘moderates’.

(…) What all political and social thinking has finally been forced to face is, of course, the irreversible degradation of the environment by unrestrained industrial capitalism: the enormous fact of which science has been trying for fifty years to convince us, while technology provided us ever greater distractions from it. Every benefit industrialism and capitalism have brought us, every wonderful advance in knowledge and health and communication and comfort, casts the same fatal shadow. All we have, we have taken from the earth; and, taking with ever increasing speed and greed, we now return little but what is sterile or poisoned. Yet we can’t stop the process. A capitalist economy, by definition, lives by growth; as Bookchin observes: “For capitalism to desist from its mindless expansion would be for it to commit social suicide.” We have, essentially, chosen cancer as the model of our social system. “Capitalism’s grow-or-die imperative stands radically at odds with ecology’s imperative of interdependence and limit. The two imperatives can no longer coexist with each other; nor can any society founded on the myth that they can be reconciled hope to survive. Either we will establish an ecological society or society will go under for everyone, irrespective of his or her status.”

publicado por AFonseca às 23:58

31 de Outubro de 2018

elephant-in-the-room.jpg

TV manipulacao_grafitti.jpg

Apathy vs consciousness graph_cartoon2.jpg

  

A eleição em 2016 de Donald Trump para a presidência dos EUA, uma nação que é por vezes designada como a ‘maior democracia do mundo’, e agora a eleição de Bolsonaro no Brasil, são sintomas claros de que algo vai muito mal nas sociedades em que vivemos. Trump é a meu ver um dos maiores ‘elefantes na sala’ do nosso tempo, revelador das consequências perversas do modelo económico, social e cultural em vigor há algumas décadas num país que tem o impacto global que todos reconhecem – só não vê o lado profundamente nefasto e trágico deste facto, quem não quiser ver! Infelizmente estes sintomas não são casos isolados – basta relembrar os relatórios, estudos e avisos mais recentes sobre a situação ambiental global ou os dados sobre os níveis brutais de desigualdade social e de distribuição de riqueza – e deveriam fazer-nos reflectir e questionar sobre muitas das premissas básicas das nossas sociedades, mesmo que para isso não tenhamos que abandonar aquilo que precisamos de fazer para manter o nosso bem-estar quotidiano.

Sobre Trump e Bolsonaro já se disse e escreveu muito. Tenho ouvido invocar muitas vezes, por um lado, o profundo descontentamento de largos sectores da população em relação às promessas dos políticos e ao nível de corrupção em diversas instituições, começando nas governamentais ou públicas. Ouço também quem culpabilize ‘as esquerdas’ por esse descontentamento, devido a estas não serem ou não apresentarem alternativas satisfatórias ou credíveis, o que teria levado muitas pessoas a embarcar nas promessas e discursos dos populistas mais ou menos autoritários, xenófobos ou fascistas. O que muitas dessas pessoas (incluindo muitos comentadores) parecem querer ignorar é que grande parte dos efeitos nefastos para a maioria da população (classes mais desfavorecidas e classes médias) se deve ao modelo económico e sócio-político dominante globalmente que foi promovido pelas elites conservadoras conotadas com a direita, mas que foi também adoptado por muitos governos da esquerda moderada (dita social-democrata). As bases desse modelo, que se tornou hegemónico após o colapso da União Soviética, são: o crescimento permanente da produção e do consumo que não teve em conta (ou ‘externalizou’) os efeitos nocivos no meio ambiente (mudança climática, destruição de ecossistemas, extinção de biodiversidade) e na coesão social; a produção industrial e mercantilização de uma grande variedade de bens e serviços por parte de grandes empresas ou corporações multinacionais, mais interessadas nos lucros e na acumulação de capital do que na qualidade dos seus produtos ou no bem-estar das populações e dos ecossistemas; a financeirização e ‘virtualização’ da economia que tem permitido que estados, empresas e famílias se endividem como se não houvesse amanhã, ficando reféns do poder financeiro transnacional. Uma grande maioria de governantes e estados não tem tido grande margem de manobra para resistir a este processo ou pura e simplesmente sucumbiu à sedução e corrupção pelo poder económico. Não é pois de estranhar que estes últimos defendam o sistema ao qual se venderam; já é menos aceitável que muitos outros o façam a não ser que sejam desonestos, mentirosos ou iludidos (ou sado-masoquistas). Claro que há inúmeras vozes a denunciar este estado de coisas, entre os quais muitos desalinhados das esquerdas, mas também muitos outros pensadores, activistas ou personalidades públicas. Gosto de invocar o exemplo do Papa Francisco pelo facto de ser mais dificilmente conotado com uma ideologia política e por ter feito na encíclica ‘Laudato Si’ um dos diagnósticos mais lúcidos, acutilantes e abrangentes do estado do mundo, denunciando os aspectos que acabei de enunciar (ver p.ex. post anterior). Nesse mesmo texto invoca ainda as dimensões cultural, ética e espiritual para completar o diagnóstico. E é nessas dimensões, às quais se junta a dimensão psicológica, que defendo que devemos procurar as causas mais profundas para o actual estado do mundo – algumas das quais assumem o estatuto de ‘elefantes na sala’ por não lhes ser dada a relevância que merecem.

1. Por um lado, é incontestável o alastramento e penetração global da cultura e mundivisão anglófona e em particular da norte-americana – que constitui uma forma brutal e terrivelmente eficaz de colonização e manipulação de massas. Para além do inglês se ter tornado uma língua franca global, o ‘american way of life’ e a obsessão pelo individualismo, pelo materialismo, pela meritocracia, pelo negócio, pelo dinheiro e pelo espectáculo, não sendo características exclusivas dos norte-americanos, constituem componentes essenciais da sua forma de ver e fazer mundo, e são transmitidas em todos os seus produtos comerciais e culturais. Para dar apenas um exemplo muito recente e específico, mas extremamente revelador, veja-se esta notícia no jornal Público. O efeito destruidor e uniformizador desta forma de neocolonialismo, que se traduz numa perda de diversidade cultural e na desvalorização das culturas locais e nacionais, é incontestável mas frequentemente subvalorizado ou menosprezado. As consequências dramáticas em termos de erosão de valores e de disfuncionalidade e desestruturação social é por demais evidente no próprio país de origem e a eleição da personagem aberrante que é Donald Trump é afinal o corolário de um processo que estava em gestação há várias décadas. O analista político e social Umair Haque tem escrito vários ensaios sobre este tópico no blog Eudaimonia: https://eand.co/. Os efeitos perniciosos da exportação global do modelo sócio-cultural norte-americano, com pouca ou nenhuma resistência oferecida por parte dos diferentes povos e estados, são já patentes nos graves problemas sociais e ambientais que surgem um pouco por todo o mundo.

2. Por outro lado, assistimos à dominação por uma ideologia económica (ligada em parte à colonização cultural referida em 1.) que se converteu numa quase-religião global – o ‘economismo’ – ao ponto de ter penetrado todas as narrativas sobre a finalidade das actividades humanas (em particular, o trabalho) e sobre o bem-estar e progresso das sociedades, desde o discurso político e mediático, às conversas quotidianas nos círculos sociais e familiares. Esta ideologia económica, cuja forma mais extrema é apelidada de neoliberalismo, promove valores ligados ao materialismo, ao individualismo, à competição e a formas extremas de meritocracia que se traduzem em comportamentos como a ganância, a ostentação ou o egoísmo, muitas vezes justificados como inerentes à natureza humana e supostamente desprovidos de determinantes sociais ou culturais. Esta ideologia conferiu aos mercados financeiros e às corporações internacionais, simultaneamente, um poder desmesurado e um estatuto perversamente humano (que se traduziu na atribuição do estatuto de pessoa jurídica a corporações ou no uso de atributos reservados às pessoas nas narrativas mediáticas sobre ‘os mercados’), tendo resultado numa distorção absurda e moralmente abjecta e injusta das prioridades sociais. No limite, as actividades e relações humanas passaram a ser socialmente válidas em função do seu valor mercantil ou monetário, perdendo o seu valor intrínseco ou o valor de uso. É o tecido social e humano que está em causa e os sintomas são já evidentes. Existem no entanto alternativas sobre as quais escrevi num post anterior.

3. Um corolário ou efeito colateral da conjunção dos dois processos descritos anteriormente e cuja relevância, insuficientemente enfatizada, justifica o estatuto de ‘elefante na sala’, tem que ver com a progressiva alienação (erosão da racionalidade empática), estupidificação (erosão do pensamento crítico e autónomo) e infantilização (cristalização de comportamentos imaturos) de largos sectores da população em diferentes países. Este processo foi intensificado pela publicidade/marketing e pelos media dominantes que têm desempenhado um papel central e devastador na transformação dos cidadãos em consumidores e espectadores. A propaganda e a compulsão repressiva, que caracterizavam muitos regimes autoritários, foram substituídas por processos de aculturação e manipulação mais subtis e sedutores levados a cabo pelas poderosas máquinas de manipulação em que se tornaram as empresas de publicidade e marketing, os grandes conglomerados de media, bem como as indústrias culturais, do espectáculo e do entretenimento. O que é grave é que estes processos ocorreram em sociedades supostamente livres e democráticas sem que houvesse uma resistência eficaz à sua proliferação e intensificação. Permito-me destacar alguns exemplos ilustrativos do nível de insensatez e insanidade a que chegámos: o abaixamento progressivo de qualidade dos programas televisivos dirigidos a grandes audiências que vão desde concursos, ‘talk-shows’ e ‘reality-shows’ estupidificantes ou alienantes a conteúdos ficcionais que promovem comportamentos e valores eticamente reprováveis (futilidade, vulgaridade, consumismo, egoismo, etc.); a aceitação social de concursos, eventos e publicidade dirigidos a crianças, que promovem comportamentos consumistas, individualistas ou violentos; a omnipresença da publicidade em todos os lugares públicos e a infestação de bares, cafés, restaurantes, consultórios e serviços públicos por televisores; a atribuição generalizada de nomes de empresas e de instituições financeiras a eventos e estabelecimentos culturais, recreativos e desportivos. Os efeitos psicológicos e sociais devastadores destes processos, para os quais contribuem também em grande medida o mundo empresarial, os estabelecimentos de ensino e as famílias, ao reproduzirem ou não recusarem as narrativas e práticas dominantes, são evidentes em diversos comportamentos observados um pouco por todo o mundo: o consumismo (e hiperconsumismo) compulsivo de inúmeras pessoas, a apatia ou conformismo social de grandes camadas da população, a incidência crescente de comportamentos sociais desviantes e de diversas psicopatologias (ansiedade, depressão, 'burnout'), a obsessão pela imagem, pela ostentação e pelo culto da personalidade que vêm alastrando em diversos estratos sociais, os diversos tipos de adição que vão desde os estupefacientes e os vídeo-jogos à pornografia e à violência física e psicológica, a adesão crescente a movimentos políticos, sociais ou religiosos extremistas ou fundamentalistas, etc. A profusão dos dispositivos digitais e das chamadas ‘redes sociais’ vieram intensificar ainda mais alguns dos efeitos nefastos destes fenómenos. Já tinha aludido a alguns destes aspectos num post anterior. Uma das dificuldades em lidar com as consequências éticas, psicológicas e sociais de muitos destes processos prende-se com o facto de serem promovidos e/ou beneficiarem grandes interesses económicos e corporativos, tornando difícil o controlo por parte dos poderes públicos e da sociedade civil. Alguns dos efeitos extremos deste estado de coisas prendem-se com a proliferação das chamadas ‘fake news’, dos boatos e das mentiras, quer nos media convencionais (jornais e TVs) quer na Internet e nas redes sociais. Não é de admirar que uma sociedade que admite que lhe mintam descaradamente e diariamente através da publicidade, da propaganda política e dos media se deixe seduzir pelos discursos mais falaciosos e populistas que promovem diversos tipos de comportamentos eticamente aberrantes ou sociopatas. A normalização da mentira e do logro é para mim a faceta mais trágica e destrutiva do estado actual de muitas sociedades em todo o mundo e tem a dimensão de uma grande catástrofe social que está em curso perante uma grande apatia, conformismo ou negação.

4. O outro ‘elefante na sala’ é, em grande medida, resultante da migração progressiva das populações para os ambientes urbanos, tendo a população urbana mundial ultrapassado a população rural no início deste século e devendo atingir 2/3 do total em 2050. Trata-se de uma das principais consequências deste processo que é global e aparentemente imparável: o progressivo afastamento entre as pessoas e o mundo não-humano (‘natureza’) ou o mundo rural. Aquele afastamento levou por sua vez a uma dessensibilização de grandes camadas da população (nomeadamente as mais jovens) em relação às questões da gestão e do cuidado, não só dos ambientes naturais (conservação dos ecossistemas e da biodiversidade, gestão dos recursos naturais), como dos ambientes antropizados, nomeadamente os destinados à produção alimentar e agro-pecuária. Abordei as questões ligadas à produção alimentar em posts anteriores. São bem conhecidos os efeitos pedagógicos e psicológicos positivos do contacto com os ambientes naturais, mas aquele que me parece mais relevante tem que ver com a capacidade de compreender racional e emocionalmente o lugar central e essencial que têm a interdependência e a ecodependência na sustentabilidade da vida humana e não-humana. Aludi a este tema num post anterior. As consequências nefastas da perda ou da superficialidade no contacto com a natureza e com a ruralidade são patentes há várias décadas mas intensificaram-se e generalizaram-se mais recentemente, conduzindo às actuais visões distorcidas e práticas insustentáveis. A visão dominante utilitarista e mecanicista da natureza e dos recursos naturais conduziu inevitavelmente à sua depredação e destruição, patentes na crise ambiental global de dimensões alarmantes e perturbadoras, como nos lembram sucessivos estudos e relatórios que não têm no entanto suscitado uma resposta política ao nível da gravidade e da urgência dos problemas diagnosticados – ver p.ex.: Aviso de cientistas à Humanidade (Nov 2017) ou Relatório do IPCC (Out 2018).

 

Ficaram de fora pelo menos mais dois 'elefantes' de grandes proporções e impacto: a instalação do medo e da desconfiança, como factores-chave para a desagregação social e para o regresso do autotitarismo e do fascismo, bem como a fé cega nos feitos e virtudes da ciência e da tecnologia que têm justificado as promessas infundadas e ilusórias das narrativas tecno-optimistas e tecnocráticas da quarta revoulução industrial e do trans-humanismo. Mas este post já vai longo...

Deixarei também para posts futuros o aprofundamento de alguns tópicos como a estupidificação, a era da ‘pós-verdade’ e a erosão da empatia, assim como a apresentação e discussão de alternativas e de antídotos a estes fenómenos. Por agora, limito-me a dizer que acredito que os caminhos para sociedades mais sustentáveis, justas e solidárias passam por uma tomada de consciência e uma vontade de ver e de sentir para além das ilusões e falácias das narrativas dominantes, resgatando as nossas capacidades de autonomia, de emancipação e de livre arbítrio que são essenciais para contrariar o discurso hegemónico das inevitabilidades. Só assim poderemos recuperar uma racionalidade empática, uma emotividade e sensibilidade que nos devolvam a sensatez e a alegria de (con)viver, uma espiritualidade laica que nos devolva a noção do sagrado, e uma capacidade de resistência e coragem para atravessar os tempos difíceis que se adivinham. A empatia, a alegria e a coragem são as condições necessárias à re-humanização das nossas sociedades. Esses caminhos terão de ser feitos em conjunto, num lado-a-lado de apoio mútuo e deverão envolver uma redemocratização radical das sociedades, essencial para conseguirmos uma gestão colectiva do bem-estar e dos bens comuns que seja simultaneamente sustentável e justa.

 

revolucao da alegria.jpg

  

Deixo os links para algumas leituras adicionais - artigos recentes sobre o estado do mundo:

The ‘living planet’ worldview, Charles Eisenstein:

https://countercurrents.org/2018/10/14/initiation-into-a-living-planet/

(…) If we continue degrading and destroying [Earth’s ecosystems], then even if we cut emissions to zero overnight, Earth would still die a death of a million cuts. (…) Our stories are powerful. If we see the world as dead, we will kill it. And if we see the world as alive, we will learn how to serve its healing. (…) The Living Planet view, by which I mean the conscious ensouled planet view, acknowledges an intimate link between human and ecological affairs. (…) A society that exploits the most vulnerable people will necessarily exploit the most vulnerable places too. A society devoted to healing on one level inevitably will come to serve healing on every level. (…) This is not about survival; that is why the fear narrative, the cost-benefit narrative, the existential threat narrative does not serve the cause of ecological healing. Can we replace it with the love narrative? With the beauty narrative? The empathy narrative? Can we connect with our love for this hurting living planet, and look at our hands and minds, our technology and our arts, and ask, How shall we best participate in the healing and the dreaming of Earth?

The Apocalypse Not Now, Edward Curtin:

https://countercurrents.org/2018/10/27/the-apocalypse-not-now/

(…) what message would you want to convey to keep the peons from rebelling?  What strategies, short of direct violence, would be most effective in rendering even the relatively well-off middle class passive and docile?  What, in other words, is the most effective form of social control, outside economic exploitation and fear of penury, in a putative democracy when all the controlling institutions have lost the trust of most of the population? Then, without skipping a beat, he answered his own questions.  You would, he said, tell them that the sky is falling, the empire is collapsing, that the rich rulers are going to get theirs when the system collapses on itself and that this is in the process of happening right now.  So sit back and watch the show as it closes down.  The end is near.

The age of stupid, Umair Haque:

https://eand.co/the-age-of-the-imbecile-c52ee205d94c

The climate is changing. Inequality is spiking. Young people’s lives are declining. The global economy is broken. Democracy is slowly fading, if not dying. We are in deep, deep shit as a world, as a species, as human beings. I could go on. The point isn’t to depress you. Sorry, you’re not that important. The point is that it isn’t about you. What isn’t? This. All of it. The planet. Society. Democracy. Life. Even your life. Denial is a way to retain one’s egoism, really, to cling to the delusion that one is all-powerful. “If I ignore it long enough, it’ll go away!!” Sorry. You just don’t matter that much. The great truth of this age begins right there. (…) But it is we ourselves who chose all this. This meaninglessness. This futility, emptiness, hollowness. We chose it by saying nothing mattered at all, except winning, conquest, cruelty, possession. Nothing mattered except having the power to make nothing matter. That, my friends, is the definition of imbecility. This is the age of the imbecile. The point is to make it all matter again. Society. Democracy. Prosperity. Life. The planet. Each other. Then we will matter again, too. (…) The world is engulfed in stupid, which is a way to say: nothing means anything, precisely because the only kind of power we desire anymore is the power to take meaning away from things, not give meaning to them. (…) assigning, giving, and deriving meaning - is the signal test of intelligence.

Rebelling against extinction, George Monbiot:

https://www.monbiot.com/2018/10/19/rebelling-against-extinction/ 

Our politicians, under the influence of big business, have failed us. As they take the planet to the brink, it’s time for disruptive, nonviolent disobedience.

publicado por AFonseca às 11:36

31 de Julho de 2018

life-hope_1.jpg

life-hope_fossils_HeartlessMachine.jpg

(Imagem: Heartless Machine: http://www.heartlessmachine.com/modern-fossils/) 

“(…) a esperança é a última a morrer. É isso que se diz. Contudo, não é verdade. A esperança é o mais frágil dos sentimentos, um dos primeiros a desvanecer. Ela morre, porém, no sentido que os africanos têm de morte. Quer dizer, ela morre mas não fica morta. Continua vivendo entre nós, do nosso lado. E vai comandando, secreta e subtilmente, processos e destinos. A esperança não é a última a morrer ainda que possa ser a primeira a matar-nos. E estaremos mortos se aceitarmos conviver, com cinismo, num mundo em que fazemos de conta acreditar.” Mia Couto (Os sete pecados de uma ciência pura, in: Pensatempos, 2005)

“One could say that intrinsic hope is life’s love for itself.” Kate Davies

“(…) hope has a place among the tight circle of key words I carry around. Words like imagination, creativity, love. They stand in some kind of relationship with each other, not as distant or solitary beacons in the night, but rather more like an affinity group I live for and with.” John Foran

“I don’t think we need hope. I think we need imagination. We need to imagine a future which can’t be planned for and can’t be controlled… Giving up hope, to me, means giving up the illusion of control and accepting that the future is going to be improvised, messy, difficult…” Paul Kingsnorth (citado por J. Foran)

“(…) the only solution is found in the space between awe and anguish, and between joy and despair. There, in the tension between two worlds, lies the place we just might find ourselves and our life’s work.” Jonathan Foley

 

Esperança é uma palavra que pode gerar pensamentos equívocos ou sentimentos contraditórios. É para muitos uma força que nos dá alento e motivação para viver, mas para outros é, pelo contrário, uma ilusão perigosa que nos pode conduzir à inacção ou à frustração. Para diversos filósofos e intelectuais é uma palavra incómoda por estar enredada em trivialidades ou ambiguidades ligadas ao misticismo ou aos credos religiosos. Para alguns cientistas, nomeadamente os que estão ligados à climatologia ou à ecologia, é um estado de espírito que tende a alternar com o seu oposto – o desespero e o pessimismo. De facto, o estado calamitoso em que se encontram os ecossistemas terrestres e marinhos tem sido diagnosticado por investigadores e intelectuais em todo o mundo durante as últimas décadas e a lista de sintomas é extensa: alterações climáticas, esgotamento de recursos, extinção de biodiversidade, destruição de ecossistemas, ultrapassagem de limites geofísicos, etc. Esta situação que levou, por exemplo, à publicação de um aviso à humanidade subscrito por centenas de cientistas mundiais em Novembro de 2017 https://academic.oup.com/bioscience/article/67/12/1026/4605229, não tem gerado um impacto verdadeiramente transformador, quer na opinião pública, quer em termos de acção política individual e colectiva, que se tem revelado frouxa ou ineficaz. A consciência da gravidade da situação e da responsabilidade humana no processo, que se reflecte aliás na proposta de designação da época actual por Antropoceno (ou Antropocénico), tem levado vários cientistas a ter de encarar ou mesmo a revelar publicamente o impacto emocional e psicológico que o seu próprio trabalho e conhecimento acarretam:

http://www.ozy.com/fast-forward/its-the-end-of-the-world-how-do-you-feel/62757

http://www.countercurrents.org/thomas041114.htm

http://bigthink.com/risk-reason-and-reality/climate-change-and-emotions-how-we-feel-matters-more-than-what-we-know

http://www.theguardian.com/environment/2015/jul/09/is-it-ok-scientists-weep-over-climate-change

 

Foi neste contexto que me cruzei recentemente com vários textos, uma exposição e um filme que reflectem sobre as correlações e as contradições (reais ou aparentes) entre a esperança e o desespero, que surgem perante a gravidade e dimensão da crise ambiental global.

O primeiro texto da autoria da consultora e académica norte-americana Kate Davies foi publicado na revista ‘Resurgence & Ecologist’ e tem como título ‘Where there’s life’ (cita um conhecido aforismo que aproveitei para o título deste ‘post’, numa tradução literal do inglês que é ligeiramente diferente do aforismo mais usual em português: ‘Enquanto há vida, há esperança’):

https://www.resurgence.org/magazine/article5090-where-theres-life.html

Neste texto a autora desenvolve os conceitos de esperança extrínseca e intrínseca como formas de encarar a vida e o estado do mundo. A primeira é aquela que deriva da definição mais usual relacionada com as expectativas que criamos sobre o futuro da nossa vida e do nosso mundo, derivadas dos nossos próprios desejos de bem-estar e felicidade. É uma forma de esperança que pode resultar em fortes dissonâncias entre as expectativas e a realidade, gerando ansiedade e frustração, que pode mesmo descambar em desesperança. A segunda (esperança intrínseca) é baseada numa confiança profunda em si próprio e na vida em geral, que não depende da satisfação imediata dos desejos ou das expectativas. Enquanto a primeira está mais dependente de factores e circunstâncias externas, muitas vezes imprevisíveis ou incontroláveis, a segunda baseia-se numa convicção interior mais profunda. A esperança intrínseca não deve ser confundida com optimismo pueril ou panglossiano, mas deriva de uma positividade baseada em cinco hábitos ou práticas: estar presente (consciência de si e do mundo), dar graças (expressar gratidão), amar o mundo e o outro (altruísmo e empatia), aceitar a realidade, e agir. Como refere a autora, “[intrinsic hope] is about loving life so much that we cannot sit idly by and do nothing.” Para mim, a esperança de que fala Davies tem muito a ver com a nossa capacidade intrínseca de apreciar a beleza e o valor da vida humana e não humana que nos rodeia, e que estão sempre presentes, mesmo perante circunstâncias ou perspectivas adversas, desde que consigamos activar a nossa consciência e a nossa sensibilidade através dos nossos sentidos e do nosso sentir.

 

Já no texto ‘The Varieties of Hope’, o académico e activista norte-americano John Foran discorre sobre as diferentes formas de esperança que reflectem visões e atitudes igualmente diversas sobre o estado actual do mundo:

https://countercurrents.org/2018/07/03/the-varieties-of-hope/

Começa por se referir a um artigo publicado há um ano (http://nymag.com/daily/intelligencer/2017/07/climate-change-earth-too-hot-for-humans.html) que traça cenários mais ou menos catastróficos para o futuro próximo, baseado em entrevistas a climatólogos e em artigos e relatórios científicos, e que foi mal recebido por cientistas e activistas pelo potencial desmotivante e paralisante da sua visão que revela uma verdade demasiado crua e pessimista. Foran sugere que os autores que recorrem ao pessimismo e catastrofismo promovem formas de esperança pouco produtivas (‘kinds of hope we probably don’t need’) em termos de gerarem o activismo que é indispensável para evitar os cenários que esses mesmos autores prognosticam. Dá como exemplo o ambientalista radical Derrick Jensen de quem cita o ensaio ‘Beyond hope’ (http://www.derrickjensen.org/2006/05/beyond-hope/) - excertos: “Hope is what keeps us chained to the system, the conglomerate of people and ideas and ideals that is causing the destruction of the Earth. (…) hope is a longing for a future condition over which you have no agency; it means you are essentially powerless…” No entanto, creio que uma leitura mais atenta daquele ensaio revela um apelo radical ao activismo (‘when hope dies, action begins’) e não promove de facto a inacção. Foran prossegue então com a descrição de quatro formas de esperança que considera mais positivas: ‘Practical hope’, ‘Active hope’, ‘Critical hope’ e ‘Radical Hope’. A primeira tem por base a acção colectiva no presente e a co-criação de visões inspiradoras para o futuro. Dá como exemplos o movimento europeu do Decrescimento ou o ‘Buen vivir’ sul-americano – escrevi sobre ambos anteriormente:

http://transicao_ou_disrupcao.blogs.sapo.pt/decrescimento-e-rendimento-basico-24759

http://transicao_ou_disrupcao.blogs.sapo.pt/buen-vivir-um-convite-a-repensar-o-24170

Na secção ‘Active hope’ refere-se ao pensamento e ao trabalho da activista Joanna Macy (https://workthatreconnects.org/), assim como ao projecto ‘Dark Mountain’ de Paul Kingsnorth (http://dark-mountain.net/) e à encíclica ‘Laudato Si’ do Papa Francisco, para destacar o papel da espiritualidade no activismo. Defende a interligação entre a acção política e a nossa capacidade de contar histórias e construir narrativas para activar o lado mais visceral e emotivo do nosso ser. Na secção seguinte, citando o pedagogo Paulo Freire e um ensaio de Jeffrey Duncan-Andrade (http://crescendoedgroup.org/wp-content/uploads/2014/03/Duncan-Andrade-J.-2009-Hope-Required.pdf), sugere que ‘Critical hope’ é o antídoto para a desesperança, bem como para as formas mais superficiais e ingénuas de optimismo (‘false hope’) que conduzem à apatia ou à inacção. Finalmente, associa a noção de ‘Radical hope’ aos movimentos mundiais de justiça climática e aos movimentos locais da ‘Transition network’ (https://transitionnetwork.org/) e defende ainda o poder da criatividade e da imaginação da ficção literária na criação dos novos futuros impossíveis que podem tornar-se guias poderosos para a acção.

 

O terceiro texto é da autoria do ambientalista e ensaísta norte-americano Jonathan Foley:

https://globalecoguy.org/the-space-between-two-worlds-bc75ecc8af57

Neste ensaio, o autor defende que é impossível para qualquer investigador que trabalhe em temas ligados aos problemas ambientais não se sentir deprimido com os dados sobre o estado do planeta e frustrado perante a indiferença de muitas pessoas ou a inacção dos decisores políticos. É ainda mais desesperante constatar que a informação é inequívoca sobre a responsabilidade humana nos processos de destruição ambiental e que estamos conscientes de que deixaremos um mundo em muito pior estado às gerações vindouras do que aquele em nascemos. Por outro lado, estes mesmos cientistas são expostos às facetas mais extraordinárias e inspiradoras do mundo natural, assim como à dedicação e coragem dos colegas e dos activistas que se empenham no estudo ou na defesa desse mesmo mundo natural, que se pode exprimir pelo termo ‘biofilia’. Foley defende que a possibilidade de conciliar aqueles sentimentos contraditórios consiste precisamente em navegar entre os dois mundos que existem em simultâneo: “I’ve come to believe that the best place to live is precisely between two worlds - between the world of despair and frustration, which reminds us of the work we must do and the stakes involved, and the world of awe, wonder, hope, inspiration, and love, which refuels our minds and our hearts, and keeps us going.”

 

Pelo menos três outros autores defendem teses semelhantes nos seus escritos, onde também reflectem sobre o conceito de esperança (e de desespero):

Rebecca Solnit no livro “Hope in the dark - Untold histories, wild possibilities” (2016): https://www.brainpickings.org/2016/03/16/rebecca-solnit-hope-in-the-dark-2/

Excertos: “This is an extraordinary time full of vital, transformative movements that could not be foreseen. It’s also a nightmarish time. Full engagement requires the ability to perceive both. (…) Hope is a gift you don’t have to surrender, a power you don’t have to throw away. And though hope can be an act of defiance, defiance isn’t enough reason to hope. But there are good reasons.”

Richard Heinberg no ensaio “Exploring the gap between business-as-usual and utter doom” (2016): http://www.countercurrents.org/2016/09/21/exploring-the-gap-between-business-as-usual-and-utter-doom/

Excertos: “(…) The many thousands of people working at gap-closing and resilience-building efforts deserve more attention and support, and not just because they are practical and caring individuals – as  most of them are. They are, after all, providing society with the equivalent of fire insurance and seat belts at a time when metaphoric and literal fires and crashes are certain to become far more frequent and severe. (…) I’m convinced that the consequences of decades of obsession with maintaining business-as-usual will be catastrophic. And those consequences could be upon us sooner than even some of my fellow pessimists assume. (…) while decades of failure in imagination and investment have foreclosed a host of options, I think there are still some feasible alternatives to business-as-usual that would actually provide significant improvements in most people’s daily experience of life. The gap is where the action is. All else – whether  fantasy or nightmare – is  a distraction.”

Robert Jensen no ensaio “Beyond ‘No’ and the limits of ‘Yes’: A review of Naomi Klein’s ‘No Is Not Enough’” (2017):

http://www.countercurrents.org/2017/06/21/beyond-no-and-the-limits-of-yes-a-review-of-naomi-kleins-no-is-not-enough/

Excertos: “(…) To ignore the ecological realities that make these questions [population issue, health care for all, transition to organic farming and repopulating the countryside] relevant is not hope but folly; to not incorporate biophysical limits into our organizing is to guarantee failure. Until we can acknowledge the inevitability of this kind of transition — which will be unlike anything we’ve faced in human history — we cannot plan for it. And we cannot acknowledge that it’s coming without a shared commitment not only to hope but grief. What lies ahead — coming in a time frame no one can predict, but coming — will be an unprecedented challenge for humans, and we are not ready. (…) No is not enough. But yes is not enough, either. Our fate lies in the joy and grief of maybe.”

 

A esperança que continuo a ver no mundo está não apenas no pensamento dos autores que acabei de citar, mas também nas palavras e acções inspiradoras de muitas outras pessoas que, de forma mais ou menos invisível, vão fazendo os seus caminhos e procuram outras formas de viver. Um autor e activista que me tem inspirado é Joe Brewer – um bom exemplo da sua abordagem de criar redes de resiliência e culturas regenerativas é o ensaio “How we REALLY deal with the climate crisis” (2017): https://medium.com/age-of-awareness/how-we-really-deal-with-climate-crisis-eda1125afcdd

Excertos: "Those of us working to avoid the worst of the climate crisis must be honest with ourselves. Humanity does not have the cultural capacities to make the transition and avoid systemic collapse. (…) It is here that I make the call for a deep and fundamental reframing. Let us no longer work to avoid climate catastrophe. It is too late for that. Instead, let us work to create resilient networks of communities that will be the seedlings of a new spring after a century of deadly winter. (…) The cultural sickness that created global warming is a cancer that is eating itself. Let us dislodge ourselves from its 'growth at all costs' logic and design regenerative cultures everywhere we can to survive the winter with as much collective knowledge and wisdom preserved as we can muster."

A noção de activismo sagrado de que está imbuído o trabalho de Joanna Macy ou de Joe Brewer é também defendida por outros autores e activistas:

‘Why Activism Needs The Sacred’, Carolyn Baker:

http://www.countercurrents.org/baker010114.htm

Excertos: "Cherishing the sacred in our activism and in our visions of revolutionized communities and cultures increases the likelihood that we will resist from our hearts and not simply from our heads. As a result, the new paradigms out of which our visions are realized will engender authentic transformations with more enduring resilience as opposed to reinventions of formerly oppressive systems. (…) If you’re not living on the edge, as the saying goes, you’re taking up too much space. If you’re not resisting in every way possible, and at the same time using your gifts to heal, serve, and confront the death machine, part of you has 'given up' and chosen to abide in hospice from a perspective of meaningless waiting for the inevitable. We can all do better than that."

‘Activismo sagrado - Movimento pela Regeneração Global’, Martin Winiecki:

http://www.jornalmapa.pt/2018/05/16/activismo-sagrado-movimento-pela-regeneracao-global/

Excerto: "A resistência pacífica dos indígenas protectores da água contra o oleoduto Dakota Access em Standing Rock, inspirou um movimento de 'activismo sagrado', enraizando a acção política na ligação espiritual. O activismo sagrado é uma verdadeira fonte de esperança num mundo em colapso, pois oferece os fundamentos espirituais necessários para unir pessoas do mundo inteiro em torno de uma visão comum para a mudança de paradigma."

 

O tema deste 'post' atravessa também a exposição ‘Eco-visionários’, que está patente no MAAT até ao início de Outubro: https://www.maat.pt/pt/eco-visionarios

Nessa exposição surgem as visões e criações de diferentes artistas nacionais e internacionais com propostas muito diversas, desde o tecno-optimismo ao pessimismo catastrofista, mas que constituem estimulantes reflexões sobre a crise ambiental global.

 

Recomendo ainda o visionamento do filme mais recente do realizador Paul Schrader ‘First Reformed’ (‘No coração da escuridão’: http://cinecartaz.publico.pt/Filme/387552_no-coracao-da-escuridao) que aborda também, num registo contido mas eficaz, o tema do conflito entre a esperança e o desespero, ligando de forma pouco habitual a religião e o activismo ambiental. Encontrei algumas análises lúcidas e perspicazes do filme que reflectem sobre os dois conceitos centrais deste ‘post’:

http://www.patheos.com/blogs/watchinggod/2018/06/the-despair-hope-and-holy-activism-of-first-reformed/

http://religiondispatches.org/paul-schraders-first-reformed-depicts-death-struggle-between-hope-and-despair/

https://christandpopculture.com/a-cinematic-theology-of-the-cross-despair-and-hope-in-paul-schraders-first-reformed/

https://www.thegospelcoalition.org/article/the-bad-religion-of-paul-schraders-first-reformed/

 

Embora já tenha escrito ‘posts’ num tom mais positivo (p.ex.: o post sobre ‘Buen vivir’ citado acima, https://transicao_ou_disrupcao.blogs.sapo.pt/olhos-que-nao-veem-coracao-que-nao-19770, https://transicao_ou_disrupcao.blogs.sapo.pt/mudar-as-narrativas-15913, https://transicao_ou_disrupcao.blogs.sapo.pt/11043.html), é evidente (e sou muitas vezes acusado de pessimismo ou de ter uma visão excessivamente crítica…) que muitos outros ‘posts’ têm um tom mais denunciador e realçam aspectos menos positivos da sociedade e do mundo. Atendendo a que parte dos problemas que vivemos resultam em grande medida da falta de consciência ou recusa em ver muitos desses mesmos problemas, que são escamoteados ou ocultados pelos ‘media’ convencionais – encontramo-nos em plena era da pós-verdade e das ‘fake news’, e não sou eu que o afirmo –, acredito que as minhas missivas são relevantes e úteis. Suspeito que as ‘Cassandras’ e os ‘Velhos do Restelo’ deste mundo tiveram, e continuam a ter, um papel importante na nossa história colectiva e assumo a minha modesta contribuição para continuar esse trabalho. Não tenho ilusões ou pretensões de que vou ‘salvar o mundo’, mas irei prosseguir o meu caminho de conhecer e sentir o mundo à minha volta, que dá sentido à minha vida e me traz alguma paz de espírito. Por isso, continuarei a partilhar a diversidade de vozes de pensadores e activistas a quem peço emprestado os ‘óculos’ que me ajudam a ver e a pensar o mundo tal como ele é, estimulando a reflexão e o espírito crítico. Talvez não seja a forma mais eficaz de activismo, mas como disse José Saramago numa entrevista: “Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de reflexão, que pode não ter um objectivo determinado,… Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar e parece-me que sem ideias não vamos a parte nenhuma.”

 

Deixei para o final um poema, num tom sarcástico muito próprio, de um dos meus escritores favoritos, o norte-americano Kurt Vonnegut Jr. – o humor pode ser afinal também uma forma positiva de promover a esperança:

 

Requiem (in: ‘A man without a country’):

 

The crucified planet Earth,

should it find a voice

and a sense of irony,

might now well say

of our abuse of it,

"Forgive them, Father,

They know not what they do."

 

The irony would be

that we know what

we are doing.

 

When the last living thing

has died on account of us,

how poetical it would be

if Earth could say,

in a voice floating up

perhaps

from the floor

of the Grand Canyon,

"It is done."

People did not like it here.

 

Informação e links adicionais

 

‘Ten things to do when you’re feeling hopeless’, Dave Pollard (2010):

http://howtosavetheworld.ca/2010/09/12/ten-things-to-do-when-youre-feeling-hopeless/

(#1: Give up hope!)

 

Novos modos de vida:

'Fostering new modes of life – why D. Attenborough needs to catch up with Pope Francis', Lionel Anet (2015): http://www.countercurrents.org/anet060715.htm

Excertos: “But how did we get this feeling that our nature is responsible for our demise, which paralyses us in the face of gross dishonesty and therefore unfairness? Overwhelmingly, even people of good will, are dysfunctional since they have to function in a dysfunctional socioeconomic world. (…) we can survive the effects of our existing lifestyle by abandoning competition and adopting cooperation as the ultimate mode of life.”

'Only less will do', Richard Heinberg (2015): http://www.countercurrents.org/heinberg220315.htm

Excerto: “As we collide with Earth’s limits, many people’s first reflex response will be to try to find someone to blame. The result could be wars and witch-hunts. But social and international conflict will only deepen our misery. One thing that could help would be the widely disseminated knowledge that our predicament is mostly the result of increasing human numbers and increasing appetites confronting disappearing resources, and that only cooperative self-limitation will avert a fight to the bitter end.”

 

'A construção política da esperança colectiva', Daniel Innerarity (Revista Nada):

http://www.nada.com.pt/?p=artigos&a=va&ida=49&l=pt

Excerto: “Se há alguma coisa que merece ser cultivada e civilizada, mais do que os espaços físicos, são os tempos, mais concretamente, o tempo futuro, que não é ocupado com exércitos e colonos, mas através do desejo e das expectativas. O código dessa ocupação é a esperança, uma virtude que define o esforço com que os humanos encaram essa batalha para ganhar o porvir. Entre outras particularidades desse estranho combate, teríamos de mencionar o facto singular de se referir a acontecimentos que ainda não tiveram lugar, mas que se preparam no momento presente, antecipando-os.”

 

David Byrne – Projecto e site ‘Reasons to be cheerful’: https://www.reasonstobecheerful.world/

 

Artigos de Aditya Chakrabortty (The Guardian) sobre alternativas económicas:

https://www.theguardian.com/commentisfree/series/the-alternatives

 

Video presentation ‘Against hope – a primer on complexity and collapse’, Dave Pollard (2015): http://howtosavetheworld.ca/2015/09/28/against-hope-a-primer-on-complexity-and-collapse/ (ref to ‘Ten things to do when you’re feeling hopeless’)

 

Video ‘Living into being’ with Joe Brewer (Katie Teague): https://vimeo.com/235829612

publicado por AFonseca às 21:41

31 de Março de 2018

Sacred economics_book cover.jpg

Economics of happiness_cover.jpg

 

Toda a acção económica que promove não o bem-comum, através da colaboração, mas o bem de algum, único – o tirano – ou de alguns, poucos ou muitos – oligarquia ou maioria – constitui-se como forma predatória, assim, antiecológica. Américo Pereira

A economia é, assim, o acto que serve o bem de cada ser e de todos os seres. A economia é indiscernível do bem-comum. Mas o bem-comum é indiscernível de uma ecologia digna do nome: perfeita harmonia de actos entre todos os agentes humanos e entre estes e a natureza. Américo Pereira

Não haverá verdadeira resposta à crise ecológica a não ser em escala planetária e com a condição de que se opere uma autêntica revolução política, social e cultural reorientando os objectivos da produção de bens materiais e imateriais. Félix Guattari (As três ecologias)

 

Este post surgiu na sequência de duas sessões públicas que co-organizei recentemente no ISCSP (Univ. Lisboa) em que foram exibidos dois curtos documentários que promovem visões alternativas sobre economia e cujo visionamento recomendo através das ligações a seguir indicadas:

- ‘Sacred economics’ (2012) de Ian McKenzie, baseado no livro homónimo de Charles Eisenstein (http://sacred-economics.com/about-the-book/): http://sacred-economics.com/film/; versão com possibilidade de activar legendas em PT (12 min): https://youtu.be/EEZkQv25uEs

- ‘The economics of happiness’ (2011) co-realizado e escrito por Helena Norberg-Hodge: https://www.localfutures.org/; versão abreviada (19 min): https://youtu.be/pyQaUDLW6ts

Nestes dois documentários são apresentados diagnósticos sobre o sistema económico dominante baseado na economia de mercado globalizada, que promove o crescimento, o lucro e o consumismo, e são propostos sistemas alternativos baseados em economias locais e circulares que respeitam os limites ecológicos e promovem a justiça social, a diversidade cultural e a convivialidade.

A ciência económica convencional baseia-se num sistema fechado de circulação de bens e serviços entre produtores e consumidores com o objectivo de criação ou acumulação de riqueza, em que os recursos naturais e os ecossistemas não são sequer considerados ou são encarados como ‘externalidades’. Esta visão económica está mais próxima do conceito aristotélico de crematística (que se resumia à acumulação de riqueza) do que do conceito original de economia, que dizia respeito à provisão de meios para uma vida boa e virtuosa. De facto, economia e ecologia têm uma origem etimológica comum na palavra grega ‘oikos’, que significa casa, agregado familiar ou lugar onde se habita. A primeira palavra refere-se então à gestão ou administração da casa ou dos lugares habitados e a segunda ao estudo sistemático da casa comum do Homem e dos restantes seres vivos. É exactamente sobre a ligação estreita entre economia e ecologia, mas adoptando um registo mais claramente filosófico, que versa um texto recente de Américo Pereira (professor da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa) intitulado ‘Ecologia, ambiente e economia’, que recomendo e do qual retirei as citações que abrem este post: http://www.snpcultura.org/ecologia_ambiente_economia.html

Uma ciência pretensamente económica que ignora a ciência ecológica parece à partida fadada ao insucesso. Mas esta tem sido infelizmente a visão orientadora das sociedades modernas que resultaram do racionalismo materialista europeu e das noções de desenvolvimento e de progresso, coloniais e pós-coloniais. Para piorar as coisas, tem sido esta a versão de economia ensinada nas principais instituições académicas dos países ocidentais. E é também esta a versão de economia que é apregoada diariamente nos media convencionais que repetem a historieta estafada do ‘crescimento económico’, ilustrada com números e indicadores que medem tudo menos aquilo que realmente significaria uma sociedade saudável: o bem-estar (individual e colectivo, de humanos e não-humanos, presentes e vindouros) e a sustentabilidade (social, ambiental, espiritual). A radicalização daquele modelo, com a adopção da ideologia neoliberal a partir dos anos 1980, conduziu a uma intensificação das narrativas do crescimento e do consumismo que associaram a felicidade (ilusória) à posse e à ostentação. E os resultados desastrosos desse mesmo modelo estão à vista, com os custos sociais, psicológicos e ecológicos a tornar-se cada vez mais evidentes, quer à escala local, quer global. Estes mesmos aspectos são realçados em ambos os documentários que destacam os efeitos nefastos da globalização económica e da desregulação financeira da segunda metade do século XX, nomeadamente a intensificação das desigualdades sociais, a desestruturação de comunidades, a perda de identidade cultural e de valores éticos, o aumento de doenças fisiológicas (obesidade, diabetes, cancros) e psicológicas (depressão, esgotamento), o consumo irreversível de recursos, a desregulação ambiental (da qual as alterações climáticas são a faceta mais visível), a destruição de ecossistemas e a perda de biodiversidade. Como alternativas a este modelo sociopata e ecocida, as propostas apresentadas nos dois documentários sugerem a redução do metabolismo económico (com a racionalização da produção e consumo de bens e serviços), a relocalização das actividades económicas, a reconstrução do tecido social baseada nas relações de proximidade e na convivialidade, e uma reavaliação dos conceitos de riqueza e bem-estar. A economia da dádiva ou do dom (‘gift economy’), que está na base do documentário ‘Sacred economics’, consiste na construção duma teia de relações económicas baseada na confiança, na complementaridade e reciprocidade de competências e capacidades no interior das sociedades humanas. Por seu lado, a ‘economia da felicidade’ propõe que a performance económica seja medida com base em indicadores que reflictam o bem-estar dos cidadãos e das comunidades, assim como a sustentabilidade das gerações vindouras e dos ecossistemas que as suportam. Em ambos os casos, trata-se de propostas que requerem profundas mudanças de paradigma, de visão de mundo e de modo de vida. Precisamos pois de coragem e determinação para fazer a indispensável e urgente transição que nos afaste do colapso a que nos conduzirá o modelo económico que nos tem sido apregoado como inevitável. Mais do que pugnar por uma economia ecológica (um pleonasmo desnecessário), é pois hora de recuperar o significado original da palavra economia e devolver-lhe a sua verdadeira essência ecológica nas três dimensões que o filósofo francês Félix Guattari lhe conferiu no seu livro ‘As três ecologias’ - a subjectiva (individual), a social e a ambiental:

http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/meioambiente/0041.html

Convoco para concluir as propostas do economista chileno Manfred Max-Neef para definir uma economia que promova um desenvolvimento à escala humana (‘human-scale development’):

http://www.rainforestinfo.org.au/background/maxneef.htm

- A economia deve servir as pessoas e não o contrário.

- O desenvolvimento é sobre pessoas (qualidade de vida) e não objectos (afluência material).

- O desenvolvimento não requer o crescimento e o crescimento não é o mesmo que desenvolvimento.

- Nenhuma economia é possível sem os ecossistemas do mundo.

- A economia é um subsistema do sistema maior da biosfera e deve estar adaptada a melhor servi-lo.

 

Segue-se uma lista de fontes de informação adicionais sobre modelos económicos alternativos:

 

Livros em PT:

- Ivo Gomes Francisco, ‘Repensar a economia: Rumo a um estilo de vida com futuro’, (2013): https://www.chiadobooks.com/livraria/repensar-a-economia

- Tim Jackson, ‘Prosperidade Sem Crescimento - Economia para um planeta finito’ (2009/2013): http://www.almedina.net/catalog/product_info.php?products_id=22497

Livros em EN:

- E.F: Schumacher, ‘Small is beautiful: A Study of Economics As If People Mattered’ (1973): https://en.wikipedia.org/wiki/Small_Is_Beautiful

- Bill McKibben, ‘Deep economy’ (2007): http://www.billmckibben.com/deep-economy.html

- David Korten, ‘Agenda for a new economy’ (2009); ‘New story for a new economy’ (2014): http://davidkorten.org/the-new-economy/

 

Instituições/projectos:

- New economics foundation (nef) – UK: http://www.neweconomics.org/

- The REconomy project: http://www.reconomyproject.org/

- Economy for the Common Good (Christian Felber): https://www.ecogood.org/en/

- New Economy Coalition (USA & Canada): http://neweconomy.net/

- Great Transition Initiative: http://www.greattransition.org/

- Steady State Economy (B. Czech, H. Daly): http://www.steadystate.org/

 

Ver ainda meus posts anteriores sobre ‘Buen vivir’ e ‘Decrescimento’:

http://transicao_ou_disrupcao.blogs.sapo.pt/buen-vivir-um-convite-a-repensar-o-24170

http://transicao_ou_disrupcao.blogs.sapo.pt/decrescimento-e-rendimento-basico-24759

 

publicado por AFonseca às 11:44

27 de Fevereiro de 2018

whowillfeedus report_etc_cover.png

logo_agicultura_biologica.gif

agricultura-familiar.jpg

 

 

Erradicar a pobreza e a fome e alcançar a sustentabilidade ambiental nas próximas décadas dependerá criticamente da agricultura familiar.” José Graziano da Silva (director-geral da FAO)

A nossa dependência excessiva de pesticidas nocivos é uma solução de curto prazo, um vício, que compromete os direitos à alimentação e à saúde seguras e adequadas das gerações presentes e futuras.” Baskut Tuncak (relator especial da ONU sobre substâncias e resíduos tóxicos)

“(…) os desafios à concretização do direito à alimentação e à nutrição vão muito para além dos preços, envolvendo questões de sustentabilidade e justiça. Para termos os meios necessários para nos alimentarmos no futuro, precisamos, urgentemente, de construir sistemas alimentares locais e regionais resilientes e de reduzir a concentração extrema de poder nos mercados nacionais e internacionais.” Relatório da Rede Global ‘Right to Food and Nutrition’

 

O modo como produzimos os nossos alimentos e as nossas escolhas alimentares têm impactos decisivos, não só na nossa saúde, como também na dos ecossistemas dos quais dependemos. Particularmente preocupante é o impacto ambiental do actual modelo agrícola global fortemente mecanizado e industrializado, nomeadamente em termos de emissões de gases com efeito de estufa (ver p.ex.: http://sustentabilidadenaoepalavraeaccao.blogspot.pt/2018/01/pegada-alimentar-alimentacao-e-ambiente.html). No entanto, os defensores da agricultura intensiva e das agroindústrias alegam que só esse modo de produção permite alimentar a crescente população mundial. É sabido que um dos maiores desafios que se coloca à humanidade, à escala global, é alimentar de forma adequada uma população que ultrapassará os 9 mil milhões até a meio deste século. Este tema está aliás intimamente ligado ao segundo dos 17 ‘Objectivos do Desenvolvimento Sustentável’ definidos pela ONU na sua agenda para 2030 – ‘ODS#2, Acabar com a fome e promover a agricultura sustentável’:

https://nacoesunidas.org/conheca-os-novos-17-objetivos-de-desenvolvimento-sustentavel-da-onu/

No entanto, já foi demonstrado que a fome é um problema eminentemente político e não uma questão técnica ou de escassez de alimentos, uma vez que os alimentos produzidos globalmente permitiriam alimentar toda a população mundial. A persistência da fome e da má nutrição resulta de facto duma combinação de diversos factores, como a pobreza e a desigualde, o desperdício alimentar (entre 30 a 40% a nível global, segundo dados da FAO), deficiências nas cadeias de distribuição, modelos agrícolas desadequados ou a especulação financeira no estabelecimento dos preços dos alimentos. Não vou aqui alongar-me sobre este assunto pois já outros o fizeram anteriormente (ver links no final do post).

Mas o tema que quero aqui destacar prende-se com o argumento, muito propagado por largos sectores do discurso político, mediático e até académico, de que só o modelo agrícola convencional, fortemente industrializado e dependente de agroquímicos e das monoculturas (descendente da chamada ‘Revolução Verde’ na agricultura da 2ª metade do século passado), tem níveis de produtividade que podem alimentar a população mundial, nomeadamente nas regiões mais carenciadas como a África e a Ásia. E, simultaneamente, que tal não será possível através de modos de produção alegadamente menos produtivos, como a agricultura biológica ou a agroecologia. Pois aí está uma história muito mal contada e um mito que urge desconstruir. Para tal é indispensável o acesso a informação relevante e fidedigna sobre estes assuntos.

Vem este preâmbulo a propósito de alguns relatórios e artigos publicados no final do ano passado que fornecem pistas importantes para desmistificar as principais alegações dos defensores dos modelos agroindustriais.

O relatório “Quem nos alimentará? A rede camponesa ou a cadeia agroindustrial?” foi publicado em Outubro de 2017 pelo ‘ETC group’ (grupo internacional de activismo que se dedica a avaliar os impactos sócio-económicos e ecológicos de novas tecnologias, em especial tecnologias agrícolas): http://www.etcgroup.org/es/node/5941 (versão ES) http://www.etcgroup.org/whowillfeedus (versão EN)

http://www.esquerda.net/artigo/o-que-nos-escondem-sobre-nossa-alimentacao/51879

Este relatório demonstra que a maioria dos alimentos consumidos pela população mundial provém da rede de agricultura familiar e camponesa e não da cadeia agroindustrial como alegam os defensores desta última. De facto, dos mais de 7 mil milhões de coabitantes no planeta, mais de um terço (quase 3 mil milhões) passa fome ou está subnutrido (ver p.ex. https://nacoesunidas.org/um-terco-da-populacao-mundial-esta-desnutrida-ou-com-excesso-de-peso-diz-estudo/), e o sistema agroindustrial, embora consuma 75% de todos os recursos agrícolas (água, solo, energia), não alimenta mais de 30% da população. Os restantes 70% da humanidade depende maioritariamente ou em exclusivo do campesinato. Além de ser ineficiente, a cadeia agroindustrial tem outros efeitos nefastos, como a perda de biodiversidade (nomeadamente das variedades usadas tradicionalmente ao longo de séculos, mais de 90% das quais terão sido perdidas durante o séc. XX) ou a perda de fertilidade dos solos.

Numa recente visita a Portugal (Fev 2018), o director-geral da FAO, José Graziano da Silva (responsável pelo programa ‘Fome Zero’ no Brasil) defendeu aliás o papel da agricultura familiar e a diminuição da dependência das grandes agroindústrias na luta contra a fome, referindo que produzir mais alimentos não é a prioridade num planeta em que a fome está circunscrita e a obesidade começa a ser um problema:

http://publico.pt/1802178

https://www.publico.pt/2018/02/11/mundo/entrevista/erradicar-a-fome-e-muito-barato-1802585

http://www.amambainoticias.com.br/mundo/em-portugal-chefe-da-fao-promove-a-decada-da-agricultura-familiar

https://www.dn.pt/lusa/interior/papa-e-um-grande-inspirador-do-trabalho-da-fao---diretor-geral-9104177.html

Ainda no final de 2017 a plataforma ‘Right to Food and Nutrition’ publicou uma série de 10 relatórios para comemorar os 10 anos passados sobre a crise financeira de 2007-08 e analisar as suas repercussões nas questões da segurança e soberania alimentar. Duma forma geral, conclui-se que a lógica socio-económica por detrás dos modelos dominantes de produção, distribuição e consumo de alimentos permanece intacta, e a garantia dos direitos à alimentação e nutrição, à água e à terra, bem como os direitos à saúde, à segurança social e a um ambiente saudável, permanecem secundarizados face aos interesses económicos. É possível aceder às versões em língua portuguesa aqui: http://www.righttofoodandnutrition.org/pt/overview

Dois artigos publicados também no final de 2017 são mencionados nesta notícia do The Guardian: https://www.theguardian.com/environment/2017/nov/14/switching-to-organic-farming-could-cut-greenhouse-gas-emissions-study-shows

Por um lado, um estudo publicado na revista ‘Nature Communications’ (‘Strategies for feeding the world more sustainably with organic agriculture’, Muller et al. Nov 2017: https://www.nature.com/articles/s41467-017-01410-w) demonstrou que, ao contrário do que alegam os defensores da agricultura intensiva e industrial, a agricultura biológica aliada a uma alimentação predominantemente vegetariana, pode alimentar o mundo de forma sustentável sem aumentar a área destinada à produção agrícola. Para tal será necessário que se elimine o desperdício alimentar, que se reintroduzam métodos tradicionais de fixação de azoto no solo (minimizando o uso de fertilizantes) e se reduza o cultivo de plantas para alimentar gado (principalmente soja e milho) e, portanto, o consumo de carne:

https://phys.org/news/2017-11-agriculture-world-meat-food.html

http://www.lemonde.fr/planete/article/2017/11/14/une-agriculture-100-biologique-pourrait-nourrir-la-planete-en-2050_5214822_3244.html

Esta mesma conclusão tinha sido retirada num estudo publicado em 2016 na revista ‘Nature Plants’ por investigadores da ‘Washington State University’ que fizeram uma revisão exaustiva da literatura: ‘40 Years of Science: Organic Agriculture Key to Feeding the World’ (Fev 2016) http://sustainablepulse.com/2016/02/05/40-years-of-science-organic-agriculture-key-to-feeding-the-world/#.V43UbtQrLUI

Nesse estudo os autores concluem que é possível alimentar a população mundial usando técnicas da agricultura biológica e simultaneamente garantir a sustentabilidade ambiental e financeira, assim como assegurar a saúde dos próprios agricultores.

Por outro lado, um estudo publicado na revista ‘Scientific Reports’ (‘Global Sequestration Potential of Increased Organic Carbon in Cropland Soils’, Zomer et al. Nov 2017: https://www.nature.com/articles/s41598-017-15794-8) mostrou que a substituição dos métodos convencionais de gestão dos solos por outros menos intrusivos (aumento do uso de estrume, culturas de cobertura, ‘mulching’ e plantação de árvores junto aos campos agrícolas) podem aumentar significativamente a capacidade de fixação de CO2, contribuindo assim para as metas de redução de emissões estabelecidas no Acordo de Paris e contrariando as perdas de fertilidade dos solos associadas à agricultura intensiva.

BTuncak & HElver.jpg

 

Relativamente à alegação de que o uso de agroquímicos é essencial para a produção de alimentos, um relatório apresentado na comissão de direitos humanos da ONU (Mar 2017) pela relatora especial do ONU para o direito à alimentação, Hilal Elver, defende que a necessidade do uso de pesticidas para alimentar o mundo é um mito criado pelas corporações agroindustriais:

http://canalc.pt/index.php/2017/03/09/relatorio-da-onu-denuncia-mito-de-que-pesticidas-sao-essenciais-para-alimentar-o-mundo/

http://www.quercus.pt/comunicados/2017/marco/5185-pesticidas-relatorio-do-relator-especial-da-onu-para-o-direito-a-alimentacao

https://www.theguardian.com/environment/2017/mar/07/un-experts-denounce-myth-pesticides-are-necessary-to-feed-the-world

http://www.commondreams.org/news/2017/03/07/amid-trumps-deregulatory-bonanza-un-report-details-catastrophic-impact-pesticides

O relatório acusa as corporações mundiais que fabricam pesticidas de negarem sistematicamente os danos causados pelos seus produtos, através de tácticas de marketing pouco éticas e agressivas, de transferirem a culpa dos impactos evitáveis dos pesticidas para os utilizadores, assim como de uma intensa actividade de ‘lobbying’ junto dos governos.

Uma posição semelhante foi tomada pelo relator especial da ONU para os direitos humanos e substâncias e resíduos tóxicos (Baskut Tuncak) num artigo publicado no The Guardian (Nov 2017): https://www.theguardian.com/environment/2017/nov/06/the-eu-and-glyphosate-its-time-to-put-childrens-health-before-pesticides

https://www.abrasco.org.br/site/noticias/internacionais/relatores-de-direitos-humanos-da-onu-querem-o-fim-do-uso-de-agrotoxicos/27463/

Tuncak defende que a regulamentação actual é insuficiente para proteger a saúde das crianças que são expostas a um cocktail de herbicidas, insecticidas e fungicidas, não só através da água e dos alimentos que ingerem, mas também pela exposição a esses químicos que são usados em jardins e parques públicos, e cujos efeitos são de facto desconhecidos.

Esta é também a posição da entomóloga suiça Angelika Hilbeck que, num artigo publicado em Dezembro, defende o abandono pela Europa do uso do glifosato e de outros agroquímicos:

http://gmwatch.org/en/news/latest-news/18008

A cientista vê como próximo o fim do glifosato devido à rejeição pública (na Europa) e à generalização das infestantes resistentes (nos EUA). Sugere que se deve abandonar progressivamente o uso de pesticidas, alterando o sistema de subsídios da Política Agrícola Comum de modo a que os produtos dos agricultores convencionais deixem de ser mais baratos do que os que usam práticas agrícolas que protegem a água, o solo e os alimentos. Defende que isto deve ser implementado com o apoio dos produtores convencionais, garantindo uma transição gradual para outras formas de produção.

Finalmente, uma notícia vinda do País de Gales onde vários cidadãos resolveram pôr em marcha um projecto de construção colectiva de um manifesto sobre alimentação para o seu território. O processo teve por base encontros entre pessoas com diferente envolvimento e responsabilidades na cadeia alimentar (agricultores, autarcas, comerciantes, professores, reformados, etc.) numa tentativa de encontrar consensos para construir práticas colectivas que garantissem o acesso universal a alimentação de qualidade. A conciliação de interesses e posturas distintas não augurava uma tarefa fácil nem garantia um resultado satisfatório, mas o processo de construção está em marcha e já está a proporcionar uma reaproximação dos membros da comunidade:

“Rather Than An Argument, We Can Have A Conversation”: How Food Draws Us Together In The Vision For A Healthy Society (Feb 2018):

https://valuesandframes.org/a-conversation-food-draws-us-together/

Food manifesto for Wales https://foodmanifesto.wales/

O facto é que quando se envolve um número diversificado de pessoas numa conversa colectiva sobre o seu futuro comum, é possível chegar a bom porto. E a comida é um excelente pretexto para juntar as pessoas pela satisfação de um direito básico de todos e pela construção de uma comunidade saudável e fraterna.

organic farm.jpg

 

Informação adicional

Sugiro consultar a ligação citada no início deste post e os posts mais antigos neste blog, onde é possível encontrar alguma informação adicional, bem como assistir aos documentários listados no final (incluindo ‘Seed – the untold story’ que passou recentemente na RTP1, embora num horário pouco convidativo):

http://transicao_ou_disrupcao.blogs.sapo.pt/13065.html

http://transicao_ou_disrupcao.blogs.sapo.pt/13976.html

 

Fome – questão política:

- Hunger is a political problem, Ute Schaeffer (2011):

http://www.dw.com/en/hunger-is-a-political-problem/a-15459224

Although there is more than enough food to feed the world's growing population, a global economic system that benefits the industrialized nations creates hunger in developing countries.

- It’s About Power, Not Food: The True Causes of World Hunger, By Joel Berg (2015):

https://www.huffingtonpost.com/joel-berg/the-true-causes-of-world-hunger_b_7345204.html

Some of the world’s most agriculturally abundant nations are also the hungriest.

- World hunger is the result of politics, not production, John Gray (2015):

https://www.newstatesman.com/culture/books/2015/11/john-gray-world-hunger-result-politics-not-production

We can’t know when the next famine will occur, but it will be a by-product of war and politics.

- 10 Myths about world hunger (F. Moore-Lappé & J. Collins 2015):

http://foodfirst.org/publication/world-hunger-ten-myths/

- Fome – questão política, Esther Vivas (2011):

http://sustentabilidadenaoepalavraeaccao.blogspot.pt/2011/08/os-motivos-da-fome-no-mundo-parte-2.html

http://sociedad.elpais.com/sociedad/2011/03/17/actualidad/1300316414_850215.html

Os mitos do sistema alimentar – Esther Vivas (2014):

http://www.esquerda.net/opiniao/os-mitos-do-sistema-alimentar/34479

- World hunger can't be solved with more food, Olivier De Schutter (2012)

http://www.abc.net.au/news/2012-06-19/de-schutter-hunger-is-political/4077824

It is tempting to see the fight against hunger and malnutrition as a rare point of consensus amid an otherwise conflicted international agenda. The issue is seen as above politics, merely a question of technical adjustments: producing more food and getting it to the deficit areas. Yet this is a fundamental misconception. Increasing net calorie availability does not guarantee less hunger.

 

Documentários e vídeos:

- ‘Seeds of Freedom’ Trilogy (2012-2017), produced by The Gaia Foundation:

http://www.seedsoffreedom.info/ http://www.seedsoffreedom.info/watch-the-film/watch-the-film-portuguese/

- ‘As colheitas do futuro’ / ‘Les moissons du futur’ (2012); real./argum.: Marie-Monique Robin (ARTE França): http://www.youtube.com/watch?v=eqD5z3ti74g

https://soproverde.wordpress.com/2012/09/28/a-colheita-do-futuro/

- ‘Seed - the untold story’ (2016): https://www.seedthemovie.com/

https://vimeo.com/253931223 (c/leg. PT) (1h30)

- ‘Sustainable vs. industrial farming’: Anna Lappé & Food MythBusters - Do we really need industrial agriculture to feed the world? (6 min) http://youtu.be/uem2ceZMxYk

 

publicado por AFonseca às 22:23

07 de Janeiro de 2018

Troppresse_Arte.jpg

 slow-life2.jpg

Este post foi inspirado por uma série de dez episódios curtos (com a duração de seis minutos cada) difundida recentemente pelo canal ARTE e intitulada ‘(Tr)oppressé’ (‘Slow life’ em inglês), cujo visionamento recomendo (autores da série: Emmanuelle Julien, Adrien Pavillard, Mériem Lay):

https://www.arte.tv/fr/videos/RC-014294/tr-oppresse/ (original em francês)

https://www.arte.tv/en/videos/RC-014294/slow-life/ (versão c/ legendas em inglês)

https://www.arte.tv/es/videos/RC-014294/slow-life/ (versão c/ legendas em espanhol)

"Mais rápido, mais intenso!… Mais feliz?" Este podia ser um resumo do tema genérico da série que nos desafia a encarar e a reflectir sobre o modo de vida adoptado por uma grande parte da população mundial, principalmente nas grandes cidades dos países ‘ocidentais’. O título original da série em francês é aliás um trocadilho com a expressão ‘trop pressé’ (demasiado apressado) e a palavra ‘oppressé’ (oprimido). Em cada episódio são focados diferentes tópicos que se entrecruzam, por via de entrevistas a várias personalidades: filósofos, sociólogos, jornalistas. Sem perfilhar uma postura tecnofóbica, os autores da série alertam para que a pressão constante que muitas pessoas sentem, a sensação de não ter tempo, a correria constante com a sensação de que a vida lhes escapa, a obsessão pelo prazer e pela gratificação imediata, estão ligadas em grande medida às novas tecnologias de informação e comunicação, e aos diversos dispositivos digitais que passaram a fazer parte do quotidiano e que dão a ilusão de que tudo o que precisamos está à distância de um ‘clique’. Há, no entanto, claros indícios de que muitas pessoas desenvolveram dependências dos computadores, smartphones, redes sociais, aplicativos, vídeo-jogos, ‘sites’ especializados, etc. A sua atenção e os seus desejos são espicaçados constantemente por uma avalanche de sms, emails, notificações, solicitações de informações, 'fait-divers' noticioso 24/7, publicidade e entretenimento. Não admira que tenham aumentado de forma alarmante os casos de ansiedade, depressão ou esgotamento (‘burnout’).

Embora não sendo abordado nesta série, uma outra importante fonte de ansiedade e alienação nos tempos que correm é o trabalho, ao qual muitas pessoas dedicam tempo muito para lá do razoável e do qual não conseguem desligar (ou são incitadas ou forçadas a não desligar por pressão social ou dos seus empregadores!). Os antídotos para estas disfunções podem passar pelo recurso a diversas terapias que vão desde a meditação ao ioga, mas a preocupação crescente com o bem-estar e a felicidade acabou por tornar-se um alvo fácil para empresas e empresários (ou empreendedores menos escrupulosos) que encontraram um novo nicho de mercado e de negócio.

Num dos episódios é abordado o tema dos algoritmos desenvolvidos pelas empresas de tecnologia digital que, tendo como objectivo a maximização das metas de rentabilidade, têm vindo a transformar os cidadãos em máquinas de produzir e consumir. Os autores da série também não se esquivam a criticar os media em geral e o jornalismo televisivo em particular pela sua deriva para a superficialidade, a frivolidade, o sensacionalismo e o espectáculo. No entanto, há um aspecto fulcral que a série não aborda explicitamente, talvez para evitar uma conotação ideológica: o motor por detrás da voracidade e insensatez do modo de vida que é descrito é sem dúvida o modelo social e económico hegemónico baseado no capitalismo e na economia de mercado que privilegiou e fomentou o individualismo, a competição desenfreada, o consumismo e a ganância. De qualquer modo, a série levanta várias questões relevantes e desafiantes: toda a tecnologia que nos rodeia melhora de facto o bem-estar e torna as pessoas mais felizes? Querendo estar em todos os lugares, para ter e fazer tudo, no imediato, não estaremos a esquecer o essencial? Onde fica o tempo para o ócio, para a convivência, para o envolvimento comunitário e social? E qual o lugar afinal para o prazer de viver?

Alguns destes temas são também abordados em ‘Happiness’, uma animação incisiva e demolidora do ilustrador e animador britânico Steve Cutts sobre a felicidade ilusória da vida moderna, que optou por um tom bem mais sombrio e pessimista:

https://vimeo.com/244405542

https://stevecutts.wordpress.com/2017/11/24/new-animation-happiness/

A série francesa, por seu lado, na sua abordagem mais positiva e bem-humorada, deixa um convite que, não sendo revolucionário, não deixa de ser pertinente: é urgente resgatarmos o tempo (e os espaços) para pensar, resistir e desligar. A estes desafios acrescento o de demorar. Abrandar o nosso ritmo de vida para conseguirmos ver, sentir e atravessar tudo aquilo que nos rodeia. Apreciar o belo e o prazeroso. Mas também reflectir e agir perante aquilo que nos desagrada e que não contribui para o bem-estar e a sustentabilidade – os nossos e os dos outros, humanos e não humanos, contemporâneos ou vindouros. São aliás estes mesmos os desafios dos proponentes do movimento do decrescimento (ver meu post anterior) ou do movimento ‘slow food’ e os seus derivados mais recentes (ver links no final deste post), que merecem a devida demora num post futuro.

O mesmo tema genérico é também abordado num artigo de 2015 da escritora e ‘coach’ de psicologia positiva Homaira Kabir – ‘Slowing down in an age of speed’:

https://www.huffingtonpost.com/homaira-kabir/slowing-down-in-an-age-of_b_8126966.html

do qual transcrevo alguns excertos:

“[The] infatuation with speed is a characteristic of our times. (…) Evolution has broken free from the bounds of biology and culture continues to torpedo us into a speeding spiral that has changed our relationship with time. (…) As we skim and graze, picking up one piece of entertaining information before moving onto the next in hasty bursts, we have become addicted to trivia. (…) We don’t have the time, nor the mental space, to synthesize the information we gather and sustain it through deeper thought. Such information is lost on us, for unless we are able to chew on it and apply it to our lives and the important issues of our times, it does nothing more than feed this greed for having answers. (…) real knowledge and authentic opinions have to be claimed by doing the work that not only opens us up to new perspectives, but also humbles us in the knowledge that we may never have an answer. This is a slow and painful process, and perhaps lost on a generation growing up in the cradle of ease and entertainment.”

(O fascínio pela velocidade é uma característica do nosso tempo. (...) A evolução libertou-se dos limites da biologia e a cultura continua a lançar-nos numa espiral acelerada que mudou a nossa relação com o tempo. (...) À medida que deslizamos de um pedaço de informação divertida para o próximo em saltos bruscos, vamos ficando viciados em trivialidades. (...) Não temos o tempo, nem o espaço mental, para sintetizar a informação que reunimos nem para sustentá-la através duma reflexão aprofundada. Essa informação torna-se irrelevante para nós, pois, a menos que possamos mastigá-la e aplicá-la às nossas vidas e às questões importantes dos nossos tempos, nada nos trará para além de alimentar a nossa avidez por respostas. (...) o verdadeiro conhecimento e as opiniões autênticas terão de ser resgatados fazendo o caminho que não só nos abre a novas perspectivas, mas também nos devolve a humildade de saber que talvez nunca tenhamos as respostas. Este é um processo lento e doloroso, e talvez mesmo inexequível para uma geração que cresceu na era da facilidade e do entretenimento.)

O filósofo germano-coreano Byung-Chul Han também se tem debruçado sobre estas questões, nomeadamente no seu livro ‘A sociedade do cansaço’ onde faz o diagnóstico do comportamento dos indivíduos das sociedades ocidentais formatado pelos desígnios do desempenho e da produtividade que transformam a (hiper)actividade em (hiper)passividade e (auto)submissão.

http://relogiodagua.pt/produto/a-sociedade-do-cansaco/

http://dererummundi.blogspot.pt/2017/08/a-sociedade-do-cansaco.html

Termino com o excerto final do texto duma intervenção do pensador e activista nigeriano Bayo Akomolafe numa conferência internacional sobre a construção dum movimento global de cidadãos promovido pelo projecto DEEEP (Developing Europeans’ Engagement for the Erradication of Global Poverty) em 2014:

http://bayoakomolafe.net/project/deeep-global-summit-towards-a-world-citizens-movement-learning-from-the-grassroots/

“We must slow down today because running faster in a dark maze will not help us find our way out. We must slow down today because if we have to travel far, we must find comfort in each other – in all the glorious ambiguity that being in community brings. We must slow down because the correct answer is not adequate. We must slow down because trust, the emerging currency of the ‘next’ story, is not an issue of efficiency, but a creature of intimacy. We must slow down because that is the only way we will see the contours of new possibilities urgently seeking to open to us.”

(Devemos abrandar agora porque correr mais rápido num labirinto escuro não nos ajudará a encontrar a saída. Devemos abrandar agora porque se tivermos de viajar longe, devemos encontrar conforto uns nos outros – com toda a ambiguidade que a vivência em comunidade acarreta. Devemos abrandar porque a resposta correcta não é adequada. Devemos abrandar porque a confiança, a divisa emergente da ‘nova’ história, não é uma questão de eficiência, mas uma criatura de intimidade. Devemos abrandar porque essa é a única maneira de vermos os contornos das novas possibilidades que procuram abrir-se urgentemente para nós.)

 

Informação adicional

 

Slow movement:

https://en.wikipedia.org/wiki/Slow_movement_(culture)

http://www.slowmovement.com/

 

Slow food:

https://www.slowfood.com/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Slow_Food

 

Slow education:

The Slow Professor movement – Maggie Berg & Barbara Seeber (2016):

http://www.utppublishing.com/The-Slow-Professor-Challenging-the-Culture-of-Speed-in-the-Academy.html

If there is one sector of society that should be cultivating deep thought in itself and others, it is academia. Yet the corporatisation of the contemporary university has sped up the clock, demanding increased speed and efficiency from faculty regardless of the consequences for education and scholarship.

Reviews: https://www.timeshighereducation.com/books/review-the-slow-professor-maggie-berg-barbara-seeber-university-of-toronto-press

http://www.universityaffairs.ca/features/feature-article/the-slow-professor/

 

Slow science:

Slow Science Movement: http://slow-science.org/

https://en.wikipedia.org/wiki/Slow_science

Manifesto, versão PT: http://www6.ensp.fiocruz.br/radis/revista-radis/140/reportagens/o-manifesto-do-%C2%B4slow-science%C2%B4

D. McCabe, 2012: http://www.universityaffairs.ca/features/feature-article/the-slow-science-movement/

Thomaz Wood Jr, 2012: http://www.cartacapital.com.br/sociedade/slow-science

 

Slow journalism:

https://www.slow-journalism.com/slow-journalism (Delayed Gratification magazine)

https://www.nationalgeographic.org/projects/out-of-eden-walk/blogs/lab-talk/2017-02-what-slow-journalism/

 

Slow TV:

https://www.newyorker.com/culture/cultural-comment/slow-tv

https://qz.com/748055/netflixs-newest-offering-is-a-real-time-knitting-marathon/

 

Slow activism

https://www.melwiggins.com/blog/2016/01/21/slow-activism-3-key-habits-for-long-lasting-social-change

http://jennifermeridianstudio.com/slow-activism-manifesto/

http://www.rethinklocal.org/blog/2015/02/slow-activism/

Texto adicional de Bayo Akomolafe & Marta Benavides:

The Times Are Urgent: Let's Slow Down; Open Letter to CONCORD-DEEEP, CIVICUS, GCAP, Civic Society Organizations and Activists Working for a ‘Better’ World: http://realitysandwich.com/215259/the-times-are-urgent-lets-slow-down/

 

Slow life – Portugal

https://desacelarar.wordpress.com/

publicado por AFonseca às 01:36

12 de Novembro de 2017

cop-23-logo-2.jpg

COP-23-575.jpg

 

Talvez não tenham dado por isso, mas está a decorrer em Bona até ao final da próxima semana (17 Nov) a cimeira da ONU sobre o clima, congénere da mais célebre COP-21 que deu origem ao 'Acordo de Paris' que entrou em vigor em 2016:

http://www.esquerda.net/artigo/alteracoes-climaticas-oikos-e-zero-perspetivam-acordo-de-paris-e-proxima-conferencia-das

http://climaticas.blogs.sapo.pt/quercus-vai-estar-na-23a-conferencia-do-71448

http://www.dw.com/en/climate-conference-the-23rd-bigger-greener-better/a-41140215

Nesta reunião deverão ser definidas as 'regras' para operacionalizar o tão celebrado Acordo:

http://www.dw.com/en/cop23-whats-at-stake/a-41197024

E a chanceler Merkel fez apelos ao compromisso e à urgência:

http://portocanal.sapo.pt/noticia/138862

Mas a Alemanha não é necessariamente o melhor exemplo de boas práticas:

https://aventar.eu/2017/11/05/para-alem-do-bla-bla-bla/

Como é sabido, os EUA retiraram-se do Acordo. No entanto, uma plataforma independente de personalidades e presidentes de câmara norte-americanos (America's Pledge) estão presentes na cimeira e comprometeram-se a cumprir as metas, mesmo sem apoio do governo federal:

http://pt.euronews.com/2017/11/11/norte-americanos-opositores-ao-clima-de-trump-na-conferencia-de-bona

Houve quem tenha apelado ao bom senso e responsabilidade dos líderes e negociadores reunidos em Bona:

http://www.countercurrents.org/2017/11/05/climate-leaders-the-time-has-come/

Mas há também quem duvide que sejam alcançados resultados significativos e defenda que o mundo se limitará a gerir o caminho para um colapso anunciado:

http://www.esquerda.net/opiniao/cimeira-do-clima-em-bona-o-livro-de-regras-do-colapso/51842

Claro que pode ainda haver alguma surpresa até ao final da semana (talvez por parte das Ilhas Fiji que presidem à cimeira?!), mas parece-me que a possibilidade de olhar para o futuro com algum optimismo vai depender do que se conseguir ao nível das comunidades locais (cidades, regiões), das mudanças de hábitos pessoais e da capacidade dos cidadãos se organizarem e resistirem.

Um exemplo interessante vem da Noruega, cujo governo deverá ser levado a tribunal porque, apesar de ter sido o 1º país a assinar o Acordo de Paris, tem planos para realizar prospecção de petróleo no Árctico:

https://www.theguardian.com/environment/2016/oct/18/norway-faces-climate-lawsuit-over-oil-exploration-plans

https://www.savethearctic.org/en-GB/peoplevsarcticoil/blog/we-are-going-to-court/

É possível apoiar este movimento em:

https://www.savethearctic.org/en-GB/peoplevsarcticoil/

A hipocrisia do governo norueguês tem aliás sido fortemente criticada pelas ONG e media internacionais:

https://www.theguardian.com/environment/2017/aug/10/norways-push-for-arctic-oil-and-gas-threatens-paris-climate-goals-study

Em Portugal, vários movimentos de cidadania têm-se focado na contestação às concessões de prospecção e exploração de petróleo na costa portuguesa (offshore) e em território nacional (onshore) – é possível apoiar estes movimentos e assinar petições nos respectivos sites:

http://www.asmaa-algarve.org/en/

https://www.palp.pt/

https://penichelivredepetroleo.wordpress.com/

https://www.facebook.com/Futuro-Limpo-1016929241757242/

https://www.facebook.com/salvaroclimastoppetroleo/

Notícias sobre iniciativas ou movimentos contra a exploração de petróleo:

http://www.esquerda.net/artigo/peniche-livre-de-petroleo-apela-oposicao-de-todas-camaras-municipais-com-contratos-em-terra

http://www.esquerda.net/artigo/costa-alentejana-volta-estar-sob-ameaca-dos-furos-da-enigalp/51866

https://shifter.pt/2017/08/autarquias-livres-petroleo/

http://www.esquerda.net/artigo/cientistas-lancam-apelo-para-acabar-com-contratos-de-prospecao-de-petroleo/48293

 

 

publicado por AFonseca às 20:44

31 de Outubro de 2017

Decroissance_Plus de liens.jpg

Growth finite planet_cartoon.jpg

Basic income and reasons to work_cartoon.jpg

(…) é preciso descolonizar o nosso imaginário. Em especial, desistir do imaginário económico (...) Redescobrir que a verdadeira riqueza consiste no pleno desenvolvimento das relações sociais de convívio num mundo são, e que esse objectivo pode ser alcançado com serenidade, na frugalidade, na sobriedade, até mesmo numa certa austeridade no consumo material, ou seja, aquilo que alguns preconizaram sob o slogan gandhiano ou tolstoísta de ‘simplicidade voluntária’. Serge Latouche

(…) no Norte desenvolvido, não é imaginável um projecto anticapitalista que não aposte ao mesmo tempo no decrescimento, da mesma maneira que não é fácil imaginar um projecto de decrescimento que não seja ao mesmo tempo orgulhosamente contestatário do capitalismo e as suas lógicas. Carlos Taibo

Sustainable degrowth is a multi-faceted political project that aspires to mobilise support for a change of direction, at the macro-level of economic and political institutions and at the micro-level of personal values and aspirations. Income and material comfort is to be reduced for many along the way, but the goal is that this is not experienced as welfare loss. Giorgos Kallis

 

O movimento do decrescimento tem a sua raíz nos anos 1970, no pensamento dos críticos do desenvolvimento e da sociedade do consumo (André Gorz, Arturo Escobar, Ivan Illich, Cornelius Castoriadis) e nos trabalhos de economistas desalinhados das correntes hegemónicas da economia ocidental, nomeadamente de Nicholas Georgescu-Roegen (que é considerado o proponente do termo decrescimento e introduziu o conceito de bio-economia) e dos membros do chamado ‘Clube de Roma’ que publicaram o famoso relatório ‘The limits to growth’ (1972). A transformação daquele pensamento num movimento mais consistente acontece apenas nos anos 2000, principalmente em França, como resultado dos trabalhos de economistas e ecologistas políticos como Serge Latouche, Paul Ariès, Vincent Cheynet e Joan-Martinez Alier. O termo decrescimento surge como um slogan político que traduz uma crítica radical à ideologia do crescimento económico baseado no consumo compulsivo e no produtivismo industrial, que aqueles autores consideram estar na origem das crises ambiental (alterações climáticas, extinção de biodiversidade, destruição de ecossistemas, ultrapassagem de limites geofísicos) e social (desigualdade de distribuição de rendimentos, desequilíbrios Norte-Sul) à escala global. Os 'decrescentistas' atribuem à ‘Religião do Economismo’ uma visão enviesada e insustentável que baseou a robustez da economia e o bem-estar social num crescimento económico medido por indicadores distorcidos, como o PIB, e assente na externalização dos custos ambientais. O movimento põe em causa o (hiper)consumismo, a mercantilização, a globalização destrutiva e o sistema financeiro desregulado, por considerar que conduziram ao esgotamento irreversível de recursos e à destruição ambiental. As ligações entre o modelo económico e a crise ambiental têm sido aliás defendidas por inúmeros pensadores e activistas – p.ex. Hervé Kempf (Para salvar o planeta livrem-se do capitalismo, 2009), Richard Heinberg (The end of growth, 2011), Naomi Klein (This changes everything, 2015) e até o Papa Francisco na encíclica Laudato Si (2015). Segundo os partidários do decrescimento, os pilares em que assenta o sistema económico vigente são o acesso a fontes de energia barata (combustíveis fósseis), a disponibilidade de crédito e o endividamento, a obsolescência programada e a publicidade/marketing, que geraram sociedades afluentes mas viciadas em consumo e desperdício. A crítica radical aos mitos da modernidade - o desenvolvimento, o progresso tecnológico, a abundância derivada da inovação mercantil, a felicidade material – não é nem saudosista, nem anti-civilizatória. O movimento propõe uma desaceleração progressiva dos ritmos de produção e consumo e uma redefinição do bem-estar baseadas na frugalidade e simplicidade voluntárias, e na valorização dos bens relacionais e da convivialidade (apresentando claras afinidades com o ‘Buen Vivir’ sul-americano – ver post anterior). Alguns autores têm proposto conjuntos de medidas concretas que não cabe aqui detalhar, mas que incluem a relocalização das actividades económicas, a aposta em cooperativas e na agricultura familiar, a promoção de actividades económicas com efeitos ambiental e socialmente benéficos ou a promoção de formas de democracia participativa (ver p.ex. livro de S. Latouche referido no final). As propostas do decrescimento são ambiciosas e radicais – mais do que uma reforma política ou uma mudança de regime, pretende-se consumar uma mudança de sistema – porque as consequências de manter o actual modelo económico são ambiental e socialmente desastrosas e implicarão um colapso civilizacional. O decrescimento propõe em suma aquilo que apelida de uma utopia concreta e uma revolução serena: uma nova ética de responsabilidade dos seres humanos entre si, presentes e futuros, e na sua relação com os restantes seres vivos e ecossistemas dos quais dependem.

O Rendimento Básico Universal – RBI (sigla inglesa: UBI), surge paralela mas independentemente a partir de ideias inicialmente propostas por Thomas Moore (séc. XVI) e desenvolvidas posteriormente por Thomas Payne (séc. XVIII) e, já no séc. XX, por Bertrand Russell ou James Meade. Mais recentemente, foi defendido por economistas conservadores (Milton Freedman) ou progressistas (James Tobin) e foi assumido como objectivo político pela ‘Basic Income European Network’ (BIEN, actualmente 'Earth' em vez de 'European') a partir dos anos 1980. Na sua versão mais abrangente, o RBI consiste numa prestação atribuída a cada cidadão, independentemente da sua situação financeira, familiar ou profissional, e suficiente para permitir uma vida com dignidade, garantido a satisfação das necessidades básicas de acordo com os padrões do território em que é aplicado. É incondicional no sentido de ser pago a todos os cidadãos e residentes de longo prazo, contrariamente a outras prestações sociais sujeitas a critérios intrusivos, burocráticos e condicionais (p.ex. RSI ou Subsídio de Desemprego) que excluem potenciais cidadãos necessitados. Mais do que um direito que assegura uma vida com dignidade, tal como consagrado na Carta Universal dos Direitos Humanos, o RBI é visto por muitos como um dividendo social (partilha dos bens comuns) que proporciona a segurança material que garante a emancipação dos cidadãos, promovendo a liberdade de escolha das formas da sua participação na sociedade e conferindo-lhes protecção contra situações de exclusão social como a pobreza, o desemprego ou a precariedade. O seu carácter transformador e revolucionário tem gerado muitas resistências e até rejeição, quer vindos de sectores mais conservadores (incentivo à preguiça e ao laxismo, perigo de inflação) quer de sectores mais progressistas (ameaça de desmantelamento do Estado Social e desvalorização do trabalho). Há mesmo quem advogue a implementação do RBI como forma de salvar ou reformar o capitalismo, mas a maioria dos seus defensores propõe um modelo de RBI emancipador, progressista e antiprodutivista, integrado no Estado social e não como seu substituto. Tem-se aliás vindo a assistir a uma intensificação do debate público em volta do RBI e das diferenças entre as várias versões propostas até à data, que está ter um efeito didáctico e clarificador mas que não cabe detalhar aqui – no final do post disponibilizo 'links' para aceder a informação adicional.

A abrangência do programa político do decrescimento parece-me fornecer o contexto adequado para o lançamento duma proposta de RBI e aproxima-se na sua essência dos principais desideratos dos seus proponentes: a reapropriação colectiva dos comuns, a dignificação e re-humanização do trabalho, e a mitigação do desemprego, da precariedade laboral, da pobreza e das desigualdades. Mas mais importante ainda, a contextualização do RBI no âmbito duma agenda 'decrescentista' impediria que se consumassem as derivas liberais apontadas por alguns dos críticos do RBI, como a destruição do Estado Social, a sujeição às lógicas de mercado e a promoção do consumo desnecessário e insustentável. Em 2016 foi aliás organizada uma conferência internacional em Hamburgo para promover o diálogo entre os dois movimentos (https://ubi-degrowth.eu/). Creio que a dinamização de um amplo movimento de base democrática que reúna as propostas do decrescimento com uma versão progressista do RBI tem sérias hipóteses de inflectir o rumo actual das sociedades do Norte global numa via conducente a uma sustentabilidade ambiental, económica e social, credível e duradoura.

* Este post é uma versão modificada e ampliada de um texto publicado no blog 'Rendimento Básico Incondicional': http://rbiportugal.blogs.sapo.pt/decrescimento-uma-proposta-politica-9193

 

Fontes de informação complementar:

 

Livros, artigos e sites sobre DC:

- Serge Latouche, ‘Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno’ (Petit traité de la décroissance sereine, 2007): http://www.edicoes70.pt/site/node/329

- Carlos Taibo, ‘Descrescimento, crise e capitalismo’ (2010):

http://estaleiroeditora.blogaliza.org/files/2010/09/descrecimento_web.pdf

- Giorgos Kallis, In defence of degrowth (2017): https://indefenseofdegrowth.com/

- ‘Degrowth: a vocabulary for a new era’ (2015-2017): https://vocabulary.degrowth.org/

- Wikipedia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Decrescimento_(economia) https://fr.wikipedia.org/wiki/D%C3%A9croissance_(%C3%A9conomie)

- Joan Martinez Alier, Decrescimento económico socialmente sustentável (2009):

http://arquivo.gaia.org.pt/decrescimento/martinezalier 

- Para compreender o “Decrescimento”, Alan Bocato-Franco (2013):

http://outraspalavras.net/posts/para-compreender-o-decrescimento-sem-preconceitos/

- França: http://www.decroissance.org/ e Revista: http://www.ladecroissance.net/

- Partido pelo decrescimento (França): http://www.partipourladecroissance.net/

- Espanha: http://www.decrecimiento.info/

- Itália: http://www.decrescita.com/

- Suiça: http://www.decroissance.ch/index.php/Accueil

- Brasil: http://decrescimentobrasil.blogspot.pt/

- Canadá: http://degrowthcanada.wordpress.com/

- Internacional: https://degrowth.org/

 

Artigos e sites sobre RBI:

Internacional:

- BIEN: http://www.basicincome.org/

- UBIE: http://basicincome-europe.org/ubie/

- https://en.wikipedia.org/wiki/Basic_income

Livro: Basic Income (2017) Guy Standing:

https://www.penguin.co.uk/books/304706/basic-income/

Portugal ou em PT:

- https://pt.wikipedia.org/wiki/Renda_b%C3%A1sica_de_cidadania

- http://www.rendimentobasico.pt/

- http://rbiportugal.blogs.sapo.pt/

- http://pensatempos.net/2013/12/01/rendimento-basico-incondicional/

Artigos gerais em PT:

http://pensatempos.net/2014/05/31/rendimento-basico-incondicional-e-sustentabilidade-da-predacao-a-simbiose/

http://www.jornaltornado.pt/rendimento-basico-incondicional-utopia-do-seculo-xxi-ou-base-de-um-novo-modelo-social/

http://www.jornaltornado.pt/dinheiro-caido-do-ceu-pode-ajudar-sair-da-crise/

http://www.ver.pt/rendimento-basico-incondicional-utopia-ou-solucao/

 

Visões da ‘esquerda’ sobre RBI:

http://www.esquerda.net/opiniao/rendimento-basico-incondicional-armadilha-ou-oportunidade/46124

http://www.esquerda.net/artigo/rendimento-basico-infelizmente-nao-ha-milagres/46677

http://www.jornalmapa.pt/2017/09/12/um-rendimento-basico-universal-prestacao-da-barbarie/

Louçã (Fev 2017): http://www.esquerda.net/opiniao/armadilha-finlandesa-ou-prometer-o-ceu-de-graca/46840

Resposta (F. Oneto): http://www.jornaltornado.pt/caro-francisco-louca/

Opinião de Ricardo Moreira (BE): http://www.jornaleconomico.sapo.pt/noticias/rendimento-basico-incondicional-receber-dinheiro-por-existir-e-uma-boa-ideia-217979

Resposta de Jorge Pinto (Livre): http://www.jornaleconomico.sapo.pt/noticias/rendimento-basico-trabalho-e-liberdade-219369

Visões da ‘direita’:

https://economiafinancas.com/2017/rendimento-basico-incondicional-matar-boa-ideia-nascenca/

Ricardo Arroja (Set 2017): https://eco.pt/opiniao/rbi-a-esquerda-nao-deixara/

 

Artigos sobre RBI e DC:

- Entrevista com Vincent Liegey, co-autor do livro ‘A Degrowth Project: Manifesto for an Unconditional Autonomy Allowance’ (Utopia, 2013) e do site http://www.projet-decroissance.net/, que promove a instauração de uma dotação incondicional parcialmente desmonetizada, distribuída sob a forma de direitos de uso de recursos e em moeda local (2014): https://co-munity.net/basic-income/stirring-papers/basic-income-and-degrowth-project

- Degrowth with basic income – the radical combination, J.O. Andersson (Sep2012):

https://www.academia.edu/4589424/Degrowth_with_basic_income_the_radical_combination

http://www.bien2012.de/sites/default/files/paper_237_en.pdf

- Degrowth and Unconditional Basic Income (UBI), S. Füsers and R. Blaschke (2014):

https://ecobytes.net/basic-income/stirring-papers/degrowth-and-unconditional-basic-income

 

Vídeos:

DC e críticas ao crescimento económico:

- ‘Our addiction to economic growth is killing us’, antropólogo Jason Hickel da LSE (BBC-Viewsnight, 2017): https://youtu.be/HckWP75yk9g (2 min)

- ‘Decrescimento: do Mito da Abundância à Simplicidade Voluntária’ (Luís e Manu Picazo Casariego, 2016): https://youtu.be/ChclL1naMvY (52 min)

- La décroissance, qu'est-ce que c'est ? (Le Monde, 2014):

http://www.lemonde.fr/economie/video/2014/12/18/la-decroissance-qu-est-ce-que-c-est_4542489_3234.html (3 min)

- Decrescimento: O que é essa palavra repulsiva? (V. Liegey, 2012) (Francês c/ leg. PT):

http://www.youtube.com/watch?v=kWEBVdxppGs (5 min)

- El decrecimiento en 1 minuto: https://redecofeminista.wordpress.com/2013/09/11/el-decrecimiento-en-1-minuto/

RBI:

Iniciativa Europeia do RBI: https://youtu.be/ey_6BfdJdK4

Entrevistas a Guy Standing – RBI como arma contra o populismo (RTP, 2017):

https://www.rtp.pt/noticias/fronteiras-xxi/rendimento-basico-universal-uma-arma-contra-o-populismot_v989123

http://ensina.rtp.pt/artigo/o-rendimento-basico-universal/

 

Artigos sobre crise ecológica e modelo económico:

- Why Climate Change Isn’t Our Biggest Environmental Problem, And Why Technology Won’t Save Us, by Richard Heinberg (2017):

http://www.countercurrents.org/2017/08/19/why-climate-change-isnt-our-biggest-environmental-problem-and-why-technology-wont-save-us/

- O hiperrealismo das mudanças climáticas e as várias faces do negacionismo, Déborah Danowski (2010/2012): http://www.culturaebarbarie.org/sopro/outros/hiperrealismo.html#.WRXXOtQrLUI

- Econocene: the modern era of economism as religious belief, R. Norgaard (2015):

http://www.countercurrents.org/norgaard301215.htm

- False promise: economic growth is coupled with destruction, G. Monbiot (2015):

http://www.monbiot.com/2015/11/24/false-promise/

- Inhospitable planet, G. Monbiot (2015):

http://www.monbiot.com/2015/09/29/inhospitable-planet/

- Only less will do, R. Heinberg (2015):

http://www.countercurrents.org/heinberg220315.htm

- How clean is ‘clean energy’? Renewables cannot solve the global crisis, Saral Sarkar:

https://medium.com/insurge-intelligence/how-clean-is-clean-energy-why-renewables-cannot-solve-the-global-crisis-10205baeb781

- The solution to the global crisis of capitalism is simplicity itself - Toward the post-capitalist revolution, Ted Trainer (2017):

https://medium.com/insurge-intelligence/the-transition-process-the-simpler-way-perspective-f2a64a0a1d6a

publicado por AFonseca às 08:50

21 de Agosto de 2017

Tourist terrorist_BCN2017.jpg

mass-tourism-impact-cartoon.gif

Low impact tourism_cartoon.jpg

 

 

 

 

 

 

 

"Enquanto turistas, sugamos a paisagem em função de ela nos devolver uma experiência, expor uma história ou garantir uma emoção. Por isso as cidades turísticas se vêem obrigadas a parecer-se com esse imaginário que o viajante espera encontrar.” Marc Glaudemans

“Most governments still measure tourism success simply by the number of visitors. The more, the better. For the moment, officials have been reluctant to regulate tourism to the benefit, first of all, of their own citizens. Instead, tourism is seen as an easy moneymaker and a short cut to economic development.” Elizabeth Becker

“(…) transformar a cidade num ‘centro histórico’ que deve servir para o consumo turístico e para o divertimento de fim-de-semana é uma manifestação da extrema decadência da cidade. Essa decadência não começou com o turismo: o estado de decadência de uma cidade é ainda mais visível quando já só o turismo a pode salvar.” António Guerreiro

“The issue of gentrification has been dismissed or called collateral damage. Some activist groups have been stirring the waters, but it is very difficult to fight the power of money especially when it’s supported by government.” Catarina (lisboeta entrevistada pelo 'The Guardian')

 

Cruzei-me recentemente com um conjunto de artigos de opinião no jornal britânico ‘The Guardian’ sobre o turismo massificado na Europa e as suas consequências, dos quais extraí alguns excertos:

I don’t mean to ruin your holiday, but Europe hates tourists – and with good reason, Suzanne Moore:

https://www.theguardian.com/commentisfree/2017/aug/16/dont-mean-ruin-your-holiday-but-europe-hates-tourists-with-good-reason-suzanne-moore

“Travel opens our eyes to the world – but it also means closing them. We ignore the hordes of people like us, all of whom want authentic tapas and a photo for Instagram. (…) Those who want to soak up Venice may not be those who want to get trollied on a beach in Bulgaria, but we all assume a right to visit these places. (…) We tread heavily through the homes of others as if we owned them. No wonder they wish we weren’t here.”

Mass tourism is at a tipping point – but we’re all part of the problem, Martin Kettle: https://www.theguardian.com/commentisfree/2017/aug/11/tourism-tipping-point-travel-less-damage-destruction

“Travel broadens the mind, they say. But is the person whose air-conditioned tour bus whisks them to a distant glacier in Patagonia or to the Mona Lisa for a quick selfie before depositing them at a characterless international hotel richer in experience than the one who spends the same amount of time watching the birds or the butterflies in the back garden? I doubt it. We may not be an infestation yet. But we are a problem. Travel can narrow the mind too.”

Only governments can stem the tide of tourism sweeping the globe, Elizabeth Becker: https://www.theguardian.com/commentisfree/2017/aug/05/only-governments-can-stem-tide-of-tourism-sweeping-the-globe

“It is no longer possible to dismiss criticism of exploding tourism as elite snobbery, of high-end cultural tourism versus T-shirt-clad visitors squeezed on a tour bus. Or a question of who has the right to travel and who doesn’t. The dimensions of the industry have grown so vast so quickly that it has become a serious issue of globalisation…"

Série especial de artigos no The Guardian sobre gentrificação:

https://www.theguardian.com/cities/series/gentrified-world

 

Os artigos fazem uma análise da crescente massificação e globalização do turismo, destacando muitos dos seus impactos mais negativos. Partilho de muitas das reservas e críticas apresentadas nestes artigos, onde é destacada a visão estreita dos promotores institucionais das indústrias turísticas (públicos e privados; regionais, nacionais ou internacionais) que enaltecem os benefícios económicos de curto de prazo mas desvalorizam os efeitos negativos a médio e longo prazo, tanto em termos ambientais como sociais.

Mas o que me chocou particularmente foi a animosidade e até agressividade dos inúmeros comentários que aqueles artigos receberam. Muitos deles são bastante primários e outros parecem reacções de ‘bifes’ ressabiados, mas creio que aquelas declarações exaltadas espelham, não só um estado de negação em que muita gente se colocou, mas também o efeito do ‘marketing’ institucional e mediático a que têm sido sujeitos.

 

Também por cá têm sido publicados vários artigos sobre os impactos do turismo. Em ‘Bye Bye Lisboa’ (2015), A.S. Rosa de Carvalho compara o caso extremo da turistificação de Barcelona (o turismo como Monocultura) com a crescente pressão turística que já se verificava em Lisboa, criticando a visão parcial e interesseira dos decisores políticos:

https://www.publico.pt/2015/09/13/local/noticia/bye-bye-lisboa-1707637

“Assistiu-se assim, à transformação de toda a cidade [Barcelona] num Parque Temático Turístico e à redução de todas as actividades a uma única, omnipresente e obsessiva Monocultura. O Turismo. Todo e qualquer sentido do Viver e Habitar quotidiano foi dominado e reduzido à erosão permanente do visitar, do residir temporário, do permanente happening nocturno e da festa contínua.”

 

Em ‘Todos somos turistas’ (2015), Vítor Belanciano entrevista o especialista em urbanismo holandês Marc Glaudemans, que discorre sobre os efeitos da gentrificação e do turismo na dinâmica das cidades e como estas se podem precaver e gerir esses mesmos efeitos:

http://www.publico.pt/economia/noticia/todos-somos-turistas-1717829

“O desenvolvimento [de] instrumentos de planeamento são um processo de co-criação, no qual os actores públicos e privados e os cidadãos têm de trabalhar unidos para formular uma visão estratégia dos seus bairros. (…) um plano de desenvolvimento para uma determinada área deve ser apoiado no longo prazo, para que todos os actores possam ver cumpridas as suas aspirações.”

 

Mais recentemente em ‘Turismo total’ (2017), António Guerreiro destaca a relação perversa entre cultura e turismo e o modo com este último molda e distorce aquela, transformando os próprios habitantes das cidades em turistas:

https://www.publico.pt/2017/06/16/culturaipsilon/noticia/o-turismo-total-1775561

“(…) numa época em que a cultura se tornou uma noção expansiva e até obesa (funcionando muitas vezes no lugar da política), todo o turismo é cultural e toda a cultura serve a estratégia turística."

 

O turismo tal como o conhecemos já existe há várias décadas, mas nunca antes tinha adquirido a dimensão e intensidade que tem agora. Os voos ‘low cost’, a acessibilidade de alojamento e informação, e o ‘marketing’ intensivo têm sido os principais motores. O turismo foi-se transformando numa indústria que promove mercadorias para consumo - servindo assim a economia de mercado globalizada - e tem sido promovido como tal, com ofertas e campanhas constantes e para todos os gostos. A tal ponto, que é apresentado por muitos como uma inevitabilidade incontornável do progresso e da criação de crescimento económico. Os proveitos do turismo tornaram-se tão atractivos para os poderes públicos que os governos se inibem de regulamentar a actividade com receio de perder receitas apetecíveis. Como se afirma num dos artigos do Guardian: “Tourism is now the largest employer on the planet. One in every 11 people relies on the industry for work. Unsurprisingly, few governments want to put a squeeze on such a source of wealth.” A falta de regulamentação governamental não é afinal (e infelizmente) apenas financeira… Só que a distribuição dos benefícios económicos não é equitativa: lucram os governos através dos impostos e os investidores privados, mas as populações locais acabam por não sair igualmente beneficiadas porque há pouco investimento local, o emprego gerado é muitas vezes precário e mal pago, e muitos são forçados a sair das zonas onde residem por despejo compulsivo ou pelo aumento das rendas. O efeito de gentrificação que tem acompanhado as transformações dos centros de várias grandes cidades tem sido alvo de críticas por alguns sectores da sociedade mas tem sido acarinhado por muitos decisores políticos e edis que vêem nesses processos oportunidades para estimular o investimento e impulsionar o desenvolvimento económico. Por exemplo, o vereador do urbanismo da CML, Manuel Salgado, afirmou publicamente que, no futuro, Lisboa não terá habitantes mas ‘city users’…

 

Mas para além das questões da distribuição dos rendimentos económicos e dos impactos sociais, existem muitos outros problemas igualmente graves que resultam do turismo massificado: os impactos ambientais locais e globais (consumo de alimentos e energia, lixo e poluição, alterações climáticas), a distorção das actividades económicas (em favor do sector dos serviços), a descaracterização das cidades, a invasão do espaço público, a homogeneização do comércio, a banalização da paisagem urbana e a mercantilização de tudo.

Estes efeitos têm gerado algum mal-estar nas populações e em alguns dos destinos turísticos mais afectados pela intensificação e massificação têm-se registado níveis crescentes de contestação que chegam mesmo a ser considerados como ‘turismofobia’:

Why some cities don’t like tourists (Aug 2015):

https://www.bloomberg.com/view/articles/2015-08-14/why-some-cities-don-t-like-tourists

Turismofobia chega a Espanha (Jul 2016):

http://www.elmundo.es/papel/historias/2016/07/11/577e820be2704ea4088b45cf.html

Sintomas de turismofobia (Ago 2017)

http://expresso.sapo.pt/internacional/2017-08-05-Mais-sintomas-de-turismofobia

A atitude radical e agressiva de alguns grupos que contestam o turismo é uma reacção expectável (embora não desejável) à violência que é a invasão do seu território pelas hordes de turistas que só querem consumir e divertir-se, impedindo a fruição da cidade pelos seus próprios habitantes.

 

Mas o radicalismo não é apenas dos que se opõem ao turismo - é também dos que o defendem e que usam por vezes argumentos falaciosos ou demagógicos. Dou como exemplo algumas reacções a ataques terroristas ocorridos em cidades ou zonas turísticas:

Entrevista a ex-presidente do Observatório de Segurança e Terrorismo (Ago 2017):

http://www.dn.pt/mundo/interior/terroristas-querem-assustar-os-turistas-e-atingir-as-economias-dos-paises-8712132.html

"É, acima de tudo, um ataque ao modo de vida ocidental? É a motivação deles e não é só na Europa."

Conselhos para operadores turísticos (Jan 2016):

http://www.tourismandmore.com/tidbits/a-guerra-ativa-e-passiva-do-terrorismo-contra-o-turismo/

"Os Valores do Turismo estão nos antípodas dos terroristas. Além disso, a atividade turística é tão ampla e diversificada que faculta múltiplos alvos para quem procura criar o caos econômico."

Entrevista a representante da Organização Mundial do Turismo (Dez 2015):

http://www.dw.com/pt-br/os-efeitos-do-terrorismo-para-o-turismo-internacional/a-18898442

"Depois de conflitos e crises, o turismo pode dar uma contribuição importante para o desenvolvimento social e econômico de um país, contribuindo assim também para a reconstrução. (…)  Turista em excesso não é problema. Gerenciar as correntes de turistas é que é um desafio."

Tunísia - O ataque terrorista que destruiu toda uma indústria de turismo (Ago 2016):

https://www.vice.com/pt/article/wneye4/terrorismo-na-tunisia-turismo

Destaco o caso extremo da retórica demagógica usada num muito recente artigo de opinião na sequência do atentado em Barcelona:

Fazer turismo para combater o terrorismo, J.M. Tavares (Ago 2017):

https://www.publico.pt/2017/08/18/mundo/noticia/fazer-turismo-e-combater-o-terrorismo-1782748

"Os grupos terroristas são os melhores aliados desta gente [grupos anti-turismo]: um camião a alta velocidade vale por mil cartazes a dizer 'tourists go home'. (…) Foi isso que tentei passar aos meus filhos: a consciência de que viver em democracia e em liberdade, numa das melhores e mais justas sociedades que o Homem foi até hoje capaz de criar, é um enorme privilégio. (…) Basta pôr o chapéu e os óculos escuros. Cada turista é um combatente contra o Estado Islâmico."

 

Finalmente, uma questão de que se fala menos mas que me parece também pertinente: a do turismo como forma de escapismo e alienação, que leva as pessoas ao desinteresse e desconhecimento sobre as suas próprias comunidades. A consequência mais grave é o défice de cidadania que se verifica em muitas cidades - as pessoas sabem mais sobre destinos exóticos (ou acham que sabem...) do que sobre o território onde vivem.

 

Não pretendi esgotar um assunto complexo como este e sobre o qual existem necessariamente diversos pontos de vista. Quis tão só chamar a atenção para os efeitos destrutivos e perversos da massificação e mercantilização do turismo. Encarado como uma forma de consumo, o turismo tornou-se não só um instrumento ao serviço da ideologia económica neoliberal e respectivas elites, mas também uma actividade viciante e escapista. Daí as reacções exaltadas de muitas pessoas, que não querem ver as várias facetas da realidade, nem pôr em causa o seu próprio modo de estar. E para piorar as coisas, o turismo de massa tem impactos ambientais e sociais que o tornam insustentável no médio/longo prazo e cria dependências e distorções perigosas nas actividades económicas. Que o digam alguns países da bacia mediterrânica assolados pela insegurança e pelo terrorismo!... Não quero com isto dizer que o ímpeto de viajar e de conhecer outros lugares não seja lícito ou ‘natural’, mas esta, como outras actividades humanas, pode e deve ser realizada de forma equilibrada e sustentada. E não é isso que está a acontecer. Como ilustração final dos efeitos perversos da massificação do turismo seleccionei uma frase dum artigo que exalta as qualidades da cidade de Lisboa como destino turístico ‘cool’: “It’s a place so beautiful you can’t believe people are using it to live in.”

(https://www.theguardian.com/artanddesign/2017/apr/16/lisbon-new-capital-of-cool-urban-revival-socialist-government-poor-antonio-costa).

A ameaça velada do autor desta frase, que não terá sido talvez intencional, já se está a materializar em cidades como Veneza (ver artigos citados abaixo) - veremos se Lisboa segue o mesmo caminho.

 

Turistificação PT_Bartoon2016.jpg

Turismo sem turistas_Bartoon2017.jpg

 

Deixo mais umas leituras para ajudar na reflexão

 

Artigos em português:

Crítica radical e incisiva do turismo como instrumento da sociedade mercantil capitalista, PDuarte (Abr 2016): http://www.jornalmapa.pt/2016/04/07/introducao-a-uma-critica-radical-do-turismo/

https://obeissancemorte.wordpress.com/2016/04/09/notas-para-uma-critica-radical-do-turismo-vi/

Poderíamos começar então por definir o turismo como a indústria que manipula as materialidades de que é composto o território para aí fabricar imagens e experiências vendáveis àqueles que viajam. (…) Quanto ao turista, trata-se de todo aquele que, quando visita um determinado território, reduz o imenso potencial da sua viagem a um conjunto de experiências circunscritas a essa capa superficial onde os operadores turísticos lhe vendem os seus produtos.

(…) o turismo [tornou-se] hegemónico na mediação do viajar, que assim se converte numa actividade cada dia mais trivial, passiva, repetitiva; e cada dia também mais parecida com o rotineiro passeio de fim de semana pelo interior colorido e previsível do shopping mais próximo.

(…) turismo é já em si mesmo uma recontextualização do mundo sensível que dispensa todas as contextualizações até aí existentes. Ele apresenta-nos por isso um mundo novo para um homem novo.

(…) o turismo instrumentaliza e adultera uma parte do território para aí fabricar imagens estandardizadas que se consomem com reduzido esforço intelectual. (…) essas imagens raramente são mais do que simulacros de autenticidade. É assim que um pouco por toda a parte se reinventam, no sentido de tornar facilmente comunicáveis aos turistas, centros históricos, gastronomias regionais, artes populares ou arquitecturas antigas. O ‘autêntico’, que os pacotes ou guias turísticos frequentemente anunciam ao consumidor, é uma das ficções mais em voga no universo turístico.

Dossier esquerda.net ‘Turistificação e gentrificação’ (Out 2016):

http://www.esquerda.net/dossier/turismo-cidade-e-gentrificacao/44793

Álvaro Domingues sobre utopias do mundo turístico (2015):

http://barlavento.pt/destaque/alvaro-domingues-debateu-utopias-do-mundo-turistico-em-loule

A decadência da cidade, António Guerreiro (Jul 2017): https://www.publico.pt/2017/07/07/culturaipsilon/noticia/a-decadencia-da-cidade-1777902?frm=opi

Overcoming Tourism | Superando o Turismo, Hakim Bey (1994):

https://cidadedopensar.wordpress.com/ciencias-sociais/viver-com-estrangeiros/turistas-terristas-ou-terroristas/

Versão original EN: https://hermetic.com/bey/tourism

Nada nunca realmente toca a vida de um turista. Todo ato do turista é mediado. (…) O verdadeiro espaço do turista não é a locação do exótico, mas sim o lugar-sem-lugar (literalmente a “utopia”) do espaço mediano, espaço limiar, entre-espaço – o espaço da própria viagem, a abstração industrial do aeroporto, ou a dimensão maquinal do avião ou ônibus.

É um truísmo reclamar que a diferença está desaparecendo do mundo – e é verdade, também. Mas algumas vezes é incrível descobrir o quão auto-regenerativo e orgânico o diferente pode ser. Mesmo na América, terra dos shoppings e tvs, diferenças regionais não apenas sobrevivem mas sofrem mutações e prosperam nos interstícios, nas fissuras que zigue-zagueiam no monolito, por baixo da atenção do Olhar da Mídia, invisível até para a burguesia local. Se todo o mundo está se tornando unidimensional, nós precisamos olhar entre as dimensões.

A viagem não pode ser confinada ao permissível (e agonizante) olhar do turista, para quem o mundo inteiro é inerte, um caroço de pitoresquidade, esperando para ser consumido – porque toda a questão da permissão é uma ilusão.

 

Artigos em inglês

Unsustainable mass tourism (A. Pollock, Aug 2013):

http://www.theguardian.com/sustainable-business/six-reasons-mass-tourism-unsustainable

Can tourism ever be sustainable? (J.G. Goldman, Dec 2015)

http://conservationmagazine.org/2015/12/can-global-tourism-ever-be-sustainable/

Billion dollar business (DW, Jul 2015)

http://www.dw.com/en/global-tourism-is-a-billion-dollar-business/a-18602314

Paper on climate change denial and tourism (2015):

http://www.befair.be/en/content/climate-change-skepticism-and-denial-tourism

 

Berlin proíbe arrendamento via Airbnb (Mai 2016):

http://www.esquerda.net/artigo/berlim-proibe-aluguer-de-imoveis-atraves-de-plataforma-airbnb/42579

San Francisco (EUA) restringe Airbnb (Jun 2016):

http://www.esquerda.net/artigo/sao-francisco-restringe-airbnb/43154

Airbnb Is Facing an Existential Expansion Problem, by Tom Slee (Jul 2016):

https://hbr.org/2016/07/airbnb-is-facing-an-existential-expansion-problem

Autoridades islandesas põem restrições ao AirBnB (Jun 2016):

http://www.telegraph.co.uk/travel/iceland-to-restrict-airbnb-rentals-to-cope-with-tourism-surge/

(…) government officials fear the country will be unable to accommodate more and more tourists, projected to be nearly 30,000 a day this year, and want to protect both the unspoilt landscapes as well as the housing market.

Amsterdam and the AirBnB effect (Out 2016):

https://www.theguardian.com/cities/2016/oct/06/the-airbnb-effect-amsterdam-fairbnb-property-prices-communities

 

O turismo das ‘experiências autênticas’:

7 Reasons Why the 'Authentic' Travel Experience Is a Myth, Gary Arndt (Mar 2011):

https://www.theatlantic.com/international/archive/2011/03/7-reasons-why-the-authentic-travel-experience-is-a-myth/72007/

The Myth of Authentic Travel, By David Sze (Sep 2016):

http://www.huffingtonpost.com/david-sze/the-myth-of-authentic-tra_b_8135022.html

Tourists' obsession with authenticity is driving people to visit a tiny village in England (2016): http://www.businessinsider.com/tourism-authentic-village-kidlington-england-2016-11

One can argue that an “authentic tourism experience” is a contradiction in terms. When places or experiences are discovered and populated by tourists, they ultimately change by the demands of tourists themselves and the economic opportunity this presents to providers. The presence of tourism can lead to “Disneyfication” – when a place becomes contrived in order to sell itself to consumers – and can expose local people and cultures to manipulation and exploitation.

Tourism has a dangerous obsession with “paradise.” Here’s how to fix it. (2016):

https://matadornetwork.com/change/tourism-dangerous-obsession-paradise-heres-fix/

There are several problems associated with the tourism industry’s addiction to representations of paradise. The first, of course, is that it’s a lie. The places we call “paradise” have some serious problems. (…)  responsible tourism is now growing faster than mass tourism and its outdated fabrication of paradise. While “getting away from it all” will always have some appeal the new marketing trends are around authenticity, experiences and responsibility.

Authenticity and commodification in changing tourism trends (literature review written by Claire Bougot):

http://www.tourism-master.com/2011/11/25/authenticity-and-commodification-in-changing-tourism-trends/

Millennials want authentic travel experiences (2016):

http://www.mekongtourism.org/millennials-authentic-travel-experiences/

 

Algumas ‘vítimas’ do excesso turístico:

Veneza em vias de se tornar ‘parque temático’ para turistas:

2016: https://www.theguardian.com/world/shortcuts/2016/sep/27/dont-look-now-venice-tourists-locals-sick-of-you-cruise-liners

2012: http://www.dw.com/en/tourism-overwhelms-vanishing-venice/a-16364608

2009: http://europe.newsweek.com/why-are-venetians-fleeing-venice-76751?rm=eu

Doc ‘The Venice syndrome’ (2012):

http://www.taskovskifilms.com/?film=the-venice-syndrome

Barcelona, parque temático (El País, Jul 2016):

http://cidadanialx.blogspot.pt/2016/07/turismo.html

Tourism and Barcelona: Too little too late? (May 2017)

https://www.linkedin.com/pulse/tourism-barcelona-too-little-late-kirsty-finlayson

Ilha de Skye (Ago 2017): https://www.theguardian.com/uk-news/2017/aug/09/skye-islanders-call-for-help-with-overcrowding-after-tourism-surge

Dubrovnik (Ago 2017): http://fugas.publico.pt/Noticias/376450_dubrovnik-a-cidade-de-a-guerra-dos-tronos-que-esta-a-ser-invadida-por-turistas

A série televisiva tornou popular a cidade croata, fazendo disparar o número de turistas. O autarca Mato Frankovic decidiu limitar a entrada de visitantes na cidade medieval.

publicado por AFonseca às 02:08

31 de Maio de 2017

buen-vivir-la-alternativa-de-los-pueblos6.jpg

buen-vivir-1.jpg

 

 

O Buen Vivir é um conceito plural – melhor seria falar de “bons viveres” ou “bons conviveres” – que surge especialmente das comunidades indígenas, sem negar as vantagens tecnológicas do mundo moderno ou as possíveis contribuições de outras culturas e saberes que questionam diferentes pressupostos da modernidade dominante. Alberto Acosta

Para el Buen Vivir (…) la riqueza no consiste en tener y acumular la mayor cantidad de bienes posibles, sino en lograr un equilibrio entre las necesidades fundamentales de la humanidad y los recursos disponibles para satisfacerlas. Fernando de la Cuadra

Colocando a responsabilidade ambiental no centro da noção de “boa vida” cria novos espaços que favorecem [a reflexão] relativamente ao que pode ser verdadeiramente bom para as pessoas, para o planeta, para as gerações futuras, para todas as espécies. Sofia Guedes-Vaz & Olivia Bina (2010)

 

‘Buen vivir’ ou ‘Vivir bien’ são traduções possíveis de várias expressões de povos indígenas da América Latina (p.ex. ‘sumak kawsay’ em quechua ou ‘suma qamaña’ em aymara) que espelham as cosmovisões desses mesmos povos e descrevem um conjunto de práticas quotidianas (individuais, sociais e rituais) com vista à fruição duma vida plena e harmoniosa da família e da comunidade, em comunhão com a natureza.

http://es.wikipedia.org/wiki/Sumak_kawsay

https://es.wikipedia.org/wiki/Suma_Qama%C3%B1a

http://buenvivir.ec/2016/01/18/el-sumak-kawsay/

http://buenvivir.ec/2017/04/18/el-suma-qamana-una-alternativa-propone-rescatar-los-principios-de-los-pueblos-indigenas-ancestrales/

Como práticas vinculadas ao território e resultantes da transmissão oral de conhecimento ancestral, apresentam inúmeras variantes que espelham a diversidade cultural dos povos indígenas sul- e centro-americanos, conferindo-lhes riqueza e resiliência. No entanto, partilham vários atributos comuns. Um aspecto central das práticas do ‘Buen Vivir’ é a conjugação dum ‘pensar bem’ com ‘sentir bem’ para poder ‘fazer bem’, ou seja, convocam uma atenção e uma escuta permanentes para fazer face à fragilidade da ‘vida boa’ e às perigosidades do mundo. Assim, ‘viver bem’ requer, por um lado, uma aprendizagem dos ensinamentos ancestrais, em particular sobre as práticas de cultivo e preparação de alimentos, com atenção aos ciclos naturais, às características de cada planta ou animal e às técnicas apropriadas de os cultivar/criar ou caçar e preparar, bem como sobre as actividades comunitárias, que vão desde a construção de casas, aos trabalhos nos campos ou às danças rituais. Por outro lado, ‘viver bem’ requer uma atenção ao outro através da comunicação e da generosidade, promovendo a convivialidade sem excluir o conflito, assim como uma boa capacidade de auto-análise para impedir que se manifestem comportamentos egoístas ou anti-sociais. Em muitas das cosmovisões indígenas o mundo é profundamente heterogéneo, um ‘acontecer’ e um ‘fluxo’, repleto de ‘diálogos’ e de ‘reciprocidades’ contínuas e ininterruptas, onde cada entidade (humano, árvore ou pedra) é um ser que dialoga e responde de igual para igual. Alberto Acosta (economista equatoriano que participou na elaboração da nova constituição do Equador) destaca as múltiplas dimensões duma ‘vida boa’: “Sendo uma abordagem holística, é preciso entender a diversidade de elementos a que estão condicionadas as acções humanas que proporcionam o Buen Vivir, como o conhecimento, os códigos de conduta ética e espiritual na relação com o meio ambiente, os valores humanos, a visão do futuro, entre outros.”

Na base das filosofias de vida indígenas encontram-se quatro princípios gerais que regem a produção, distribuição e circulação de bens e serviços no interior das comunidades: a relacionalidade, que se refere às inter-ligações e inter-dependências que caracterizam tudo o que existe e que é dotado de vida; a complementaridade, que resulta da incompletude dos entes e acontecimentos quando analisados isoladamente, emergindo na interacção com o outro, num equilíbrio entre comunidade e individualidade; a reciprocidade, que remete para as práticas de apoio mútuo entre grupos familiares e comunitários com base na gratuitidade do saber dar e saber receber; e a correspondência, que remete às relações harmoniosas estabelecidas entre todos os componentes da realidade, não como uma relação automática de causa e efeito, mas como nexos que se estabelecem a partir das dimensões do simbólico, dos rituais e dos vínculos afectivos.

Nas perspectivas indígenas, não há separação entre o bem-estar humano e o da natureza, sendo a sustentabilidade ambiental inerente à sua visão de mundo. Diferenciam-se pois da perspectiva filosófica de exterioridade do ser humano em relação à natureza que é própria do pensamento antropocêntrico da modernidade ocidental, oriundo do racionalismo mecanicista do Iluminismo e do produtivismo tecnológico da Revolução Industrial. Não surpreende portanto que as comunidades indígenas tenham sido e continuem a ser particularmente vulneráveis aos fenómenos de aculturação, coloniais ou pós-coloniais, principalmente porque as suas práticas são incompatíveis com os modelos de desenvolvimento e de progresso que irradiaram globalmente a partir da Europa e mais tarde dos EUA. De facto, enquanto que os modelos indígenas privilegiam a satisfação das necessidades básicas a nível material, emocional e espiritual, mantendo a coesão social e um equilíbrio com o ambiente em que se inserem para garantir a continuidade de todas as formas de vida, os modelos de bem-estar e progresso ‘ocidentais’ têm privilegiado noções de satisfação e felicidade material baseadas em economias de mercado (acumulação e mercantilização) e no consumo de recursos não renováveis (extractivismo), que se apoiam numa visão parcial da natureza humana que fomenta o individualismo e a competição em detrimento do colectivo e da cooperação. Verifica-se hoje em dia que muitas das perspectivas e práticas do ‘Buen Vivir’ estão ameaçadas por fortes pressões de assimilação - p.ex. as chamadas ‘escolas indígenas’ onde a educação funciona como ‘bullying cultural’ - e  algumas são mantidas ou toleradas como folclore ou como forma de promoção turística.

Os princípios do ‘Buen Vivir’ surgem assim como uma resposta ética de comunidades marcadamente holísticas, movidas pela reciprocidade e a solidariedade, que crêem na responsabilidade recíproca entre os seus membros e que optam pela redistribuição em vez da acumulação, que é vista como inimiga da equivalência e destruidora da harmonia. As suas propostas apresentam-se como reais alternativas ao Desenvolvimento, podendo assumir o lugar dos conceitos de ‘desenvolvimento sustentável’ ou de ‘capitalismo verde’ ensaiados recentemente pelo ‘ocidente’ como propostas falaciosas de ‘desenvolvimento alternativo’.

Muitos dos princípios e práticas do ‘Buen Vivir’ foram apropriados na década de 1990 por vários pensadores e académicos (entre os quais Alberto Acosta ou o uruguaio Eduardo Gudynas), bem como por movimentos políticos que procuravam encontrar alternativas aos efeitos destrutivos das políticas neoliberais na América Latina. Um aspecto positivo desses processos foi a inclusão daqueles mesmos princípios nas novas constituições da Bolívia e do Equador, pondo em causa os principais mitos dos modelos ocidentais de desenvolvimento económico e de progresso. Para além de aplicarem os princípios do 'Buen Vivir' nas várias áreas da sociedade (alimentação, ambiente, comunicação, cultura e ciência, educação, habitação, saúde, trabalho e segurança social), as novas constituições são paradigmáticas pelo facto de terem consagrado pela primeira vez a nível mundial o reconhecimento da Natureza (Pachamama, que na verdade é um conceito bem mais amplo do que o de Natureza: https://es.wikipedia.org/wiki/Pachamama) como sujeito de direitos.

Bolívia: https://es.wikipedia.org/wiki/Constituci%C3%B3n_de_Bolivia

http://www.economiasolidaria.org/noticias/vivir_bien_propuesta_de_modelo_de_gobierno_en_bolivia

Equador: https://es.wikipedia.org/wiki/Constituci%C3%B3n_de_Ecuador_de_2008

http://www.secretariabuenvivir.gob.ec/

Plan Nacional 2013-2017: http://www.buenvivir.gob.ec/

 

Lamentavelmente, as práticas políticas que se lhe seguiram tiveram um carácter essencialmente centralizador e autoritário, e acabaram por não cumprir muitas das expectativas criadas, resultando mesmo em inúmeras contradições e frustrações. De facto, os governos boliviano (liderado por Evo Morales) e equatoriano (liderado por Rafael Correa) vincularam empreendimentos petrolíferos e de mineração (neo-extractivismo) ao financiamento de vários programas sociais, gerando um círculo vicioso em que os excedentes provenientes do extractivismo foram usados para promover políticas públicas assistencialistas, concedendo-lhes um aparente carácter de ‘esquerda’ que foi usado para garantir legitimidade e aceitação social. Mas enquanto os governos boliviano e equatoriano afirmam a necessidade das práticas extractivistas para gerar crescimento económico e desenvolvimento social, os movimentos indígenas, que têm sido alvo de forte repressão, opõem-se-lhes apontando a gravidade dos impactos e apoiando-se na constituição e na legislação secundária aprovada pelos mesmos governos progressistas para denunciar a destruição ambiental e defender os direitos da Pachamama (Equador) e da Lei da Mãe Terra (Bolívia). A situação de retrocesso nas conquistas conseguidas naqueles países tem vindo a ser denunciada por vários autores e activistas (incluindo Acosta e Gudynas) e os próprios movimentos indígenas têm acusado os governos progressistas de ignorar o direito à consulta, à autodeterminação e à participação efectiva dos indígenas nos projectos políticos nacionais, como supostamente deveria acontecer em estados agora plurinacionais.

http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=4955:submanchete270810&catid=62:eduardo-gudynas&Itemid=131

http://www.revistaforum.com.br/2013/11/23/o-desenvolvimento-e-o-buen-vivir/

https://polis.revues.org/10643

 

Em particular, aqueles movimentos denunciam a não efectivação dos princípios do ‘Buen Vivir’ plasmados nas cartas magnas e a violação da Lei sobre os direitos da Pachamama e da Lei da Mãe Terra. Nas palavras do advogado equatoriano-quechua Luis Macas: “Para los Pueblos Indígenas o las Naciones Originarias, [el Buen Vivir] es producto de todo un acumulado histórico milenario, proviene desde su vivencia de hace miles de años, así como de las experiencias de lucha de resistencia de nuestras Naciones. Por lo tanto, este concepto no aparece de la casualidad, ni nace en la Constitución de la República Ecuatoriana, el Sumak Kawsay, se origina en el centro de la vida comunitaria, es la esencia del sistema de vida comunitaria y se explica en el ejercicio y práctica cotidiana de nuestras comunidades, es lo vital de la matriz civilizatoria de nuestros Pueblos, que aún tiene vigencia, a pesar de la interrupción violenta de la colonialidad y la agresión del modelo capitalista.”

As posições filosóficas inclusivas e holísticas do ‘Buen Vivir’ bem como a sua cultura de vida podem ser reconhecidas e têm sido praticadas noutras partes do mundo e ao longo de diferentes épocas. Destacam-se na Índia os princípios do movimento Swadeshi de Ghandi ou as propostas ecofeministas de Vandana Shiva. Na Europa, dois movimentos que surgiram independentemente como propostas alternativas ao desenvolvimento baseado no extractivismo e no crescimento económico – o movimento de Transição (Transition Network: https://transitionnetwork.org/) e o movimento do Decrescimento (https://degrowth.org/short-history/ https://fr.wikipedia.org/wiki/D%C3%A9croissance_(%C3%A9conomie); ver também post deste blog: http://transicao_ou_disrupcao.blogs.sapo.pt/8215.html) – apontam para práticas de vida com claras afinidades com o ‘Buen Vivir’. Destacam-se os conceitos de simplicidade voluntária e abundância frugal que convidam a formas de viver baseadas na convivialidade e na auto-suficiência comunitária, promovendo um bem-estar físico e psíquico que inclui todos os outros seres que partilham o território. Estes mesmos conceitos são também advogados pelo Papa Francisco na encíclica ‘Laudato Si’ onde apela à adopção de uma ecologia integral e a uma conversão ecológica que promova uma aliança entre a humanidade e a sua casa comum (ver 'post' anterior deste blog: http://transicao_ou_disrupcao.blogs.sapo.pt/laudato-si-um-manifesto-politico-sobre-20890). Em Portugal, o sociólogo Boaventura Sousa Santos tem disseminado e advogado as propostas do ‘Buen Vivir’ e dos movimentos indígenas da América Latina, que integrou no conceito mais abrangente de ‘Epistemologias do Sul’ e que tem promovido através do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra:

http://alice.ces.uc.pt/news/?tag=buen-vivir

Livro ‘Epistemologias do Sul’ (c/ Maria Paula Meneses): http://www.almedina.net/catalog/product_info.php?products_id=8365

Colóquio Internacional ‘Território, interculturalidade e bem-viver: as lutas dos povos indígenas no Brasil’ (2014): http://alice.ces.uc.pt/en/index.php/agenda/event/?event=299

Prefácios de edições do livro ‘Buen Vivir’ de Alberto Acosta: http://editoraelefante.com.br/boaventura-bem-viver-rompe-com-subdesenvolvimento-politico-e-ideologico/

http://www.icariaeditorial.com/pdf_libros/Buen%20Vivir.%20Index%20intro.pdf

 

Para finalizar destaco dois aspectos notáveis das propostas do ‘Buen Vivir’. Por um lado, o facto de elas surgirem de povos tradicionalmente marginalizados, que foram sujeitos a processos brutais de colonização e de menorização cultural durante séculos, mas que conseguiram manter vivos os seus modos de vida, que surgem agora como inspiração para encontrar alternativas aos modelos globais de desenvolvimento claramente ecocidas e sociopatas. Por outro lado, convém lembrar que, como afirma Acosta, “o Buen Vivir não sintetiza nenhuma proposta plenamente desenvolvida, muito menos indiscutível” nem “pretende assumir o papel de um mandato global”, mas consiste antes num “diálogo permanente e construtivo de saberes e conhecimentos ancestrais com a parte mais avançada do pensamento universal, num processo de contínua descolonização da sociedade.” Trata-se pois dum processo aberto, necessariamente incompleto e aperfeiçoável. Para o ‘Buen Vivir’ a felicidade - o bem-estar e o bem-ser - materializa-se numa forma de vida plena de significado vinculada ao pensamento e acção virtuosos, em que os direitos individuais estão intimamente ligados às responsabilidades e à noção do colectivo e dos comuns. As suas práticas não correspondem a nenhum padrão ideal ou idílico, mas podem ser apropriadas por quaisquer comunidades com disponibilidade para repensar o seu próprio modo de vida, procurando construir práticas de um viver belamente e gostosamente, capazes de gerar processos de autonomia pessoal que se realizem socialmente, numa escuta e atenção constantes da pluralidade, da inter-relação e da complementaridade do território, dos outros e dos comuns.

 

Mais informação sobre ‘Buen vivir’ e temas relacionados:

 

Alberto Acosta (Ecuador): http://es.wikipedia.org/wiki/Alberto_Acosta_Espinosa

Livro - Síntese: http://www.outraspalavras.net/outroslivros/loja/o-bem-viver-uma-oportunidade-para-imaginar-outros-mundos/

Entrevista: http://www.revistaforum.com.br/2013/11/23/o-desenvolvimento-e-o-buen-vivir/

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/41738-por-uma-declaracao-universal-dos-direitos-da-natureza-reflexoes-para-a-acao

 

Eduardo Gudynas (Uruguay): http://accionyreaccion.com/

http://www.palgrave-journals.com/development/journal/v54/n4/full/dev201186a.html

https://oglobo.globo.com/cultura/buen-vivir-15583188

https://www.theguardian.com/sustainable-business/blog/buen-vivir-philosophy-south-america-eduardo-gudynas

 

Buen Vivir: Una auténtica alternativa post-capitalista? Fernando de la Cuadra (2015):

https://polis.revues.org/10893

 

El Buen Vivir And The Commons, interview to Gustavo Soto by Silke Helfrich (Sep 2016):

http://www.countercurrents.org/2016/09/27/el-buen-vivir-and-the-commons/

 

A Good Life sees Virtue in Responsibility - Responsabilidade Ambiental como uma virtude. Um possível caminho para a “boa vida”? S. Guedes Vaz e O. Bina (Gulb.-Próximo Futuro-Workshop Felicidade, 2010)

https://www.academia.edu/369820/Vaz_S._and_Bina_O._2010_A_Good_Life_Sees_Virtue_in_Responsibility

 

Uma economia e sociedade de bem-estar, Grupo Economia e Sociedade (2014):

http://areiadosdias.blogspot.pt/p/uma-economia-e-sociedade-de-bem.html

Desenvolver é tudo quanto baste? M. Brandão Alves (GES, 2015):

http://areiadosdias.blogspot.pt/p/desenvolver-e-tudo-quanto-baste-ainda.html

 

Bens comuns – antídoto ao neoliberalismo, George Monbiot (2017):

http://outraspalavras.net/posts/bens-comuns-antidoto-ao-neoliberalismo/

 

Decrescimento: deseconomizar o imaginário (confª de S. Latouche):

http://www.ihu.unisinos.br/503647-decrescimento-e-preciso-deseconomizar-o-imaginario

 

publicado por AFonseca às 16:45

mais sobre mim

ver perfil

seguir perfil

4 seguidores
Apoiem esta iniciativa:
Fevereiro 2019
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28


pesquisar
 
arquivos
2019:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2018:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2017:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2016:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2015:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2014:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2013:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2012:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2011:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2010:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


subscrever feeds
blogs SAPO